Sinto saudades. E é como se não o sentisse. Tua presença nas pequenas coisas, tua materialização em cada canto de casa, em cada música que ouço, teu reflexo na água do mar. É como se não estivéssemos assim, distantes, é como se não estivesse aqui, sozinho, esperando ansioso por ti. Pareces estar sempre presente, em pequenos pedaços de memória que, no fim do dia, materializam-se em uma única lágrima, tímida a escorrer do olho esquerdo.
Sinto saudades. Espero, atento, para que o telefone toque. E sejamos um só novamente, nas conversas que preenchem o vazio de noites tão modorrentas. A saudade aperta, como que provando para mim mesmo o amor que sinto por ti. Ouço tuas palavras de carinho, risadas gostosas, piadas, e, finalmente, a confirmação de que deste mal chamado saudade, não sofro só. E isso me conforta.
Os dias caminham a passos largos, tão largos. Leio, mas não consigo me prender às palavras na minha frente enquanto não me der um minuto para pensar em ti. Mergulho no mar que espero um ano inteiro para ver, mas sinto que algo ainda está faltando. Nem que fosse aquele abracinho tímido, de quem (ainda) não se acostumou a me abraçar, queria que estivesses ali, para eu jogar água na tua cara e te carregar nas costas no meio da praia do Farol Velho. Me contento em cantar “She´s Leaving Home” enquanto nado, em voz alta, pouco me importando com as pessoas ao meu redor.
É tão comum e exato, o tempo passando vago, quando não estás aqui.
Sinto saudades. E é como se ela sempre existisse. Dois dias parecem um ano. Escrevia versos no guardanapo até achar um caderno e, àqui, os confidenciar. São versos bobos, palavras de amor engolidas em um gole de água (aquela que você não divide nem comigo!). A memória insiste em me lembrar que ando aos tropeços sem tua companhia, essa a que estou tão acostumado. Versos infantis estes, confesso. Mas a saudade é um sentimento normal, e naturalmente bobo.
E todo dia vou pensando que, quando voltares, te farei lembrar de todo o carinho que sinto por ti, meu amor. Mesmo à distância prometo manter em meus lábios um “eu te amo” encarcerado, para te dizer assim que puder, assim que cruzares a alfândega com mil sacolas de compras e uma maletinha cheia de roupas de frio nos braços.
Só para te lembrar que és o meu grande amor.
José Augusto Mendes Lobato 10/07/06
segunda-feira, 10 de julho de 2006
quinta-feira, 6 de julho de 2006
Wave
Já pensei várias vezes em como a vida pode não ser a sucessão de dias em que "deixamos estar". Com os pensamentos aéreos assim, achei lembranças empoeiradas em uma estante qualquer e comecei a caminhar, sonâmbulo, pelo quarto, lendo as entrelinhas da minha pessoa. Aquelas que estavam suspensas no ar, se desprendendo do papel como partículas de mofo que esperavam ser libertadas.
Meu Deus, como eu cresci! Nem acredito que eu era aquele que temia o ano que estava por vir, o dia em que colocaria meus pés no asfalto. É engraçado lembrar de como já temi as coisas mais exdrúxulas. Recordo-me de dias lisérgicos, regados a cerveja e vinho, onde pensava comigo mesmo:"E se hoje for meu último dia? Será que estou aproveitando ele?", e dava risada da minha própria insegurança. Depois que me acordava sentia, então, a sensação de quem jamais tinha aproveitado o último dia sob os covardes lençóis do entorpecimento. Mas o mundo e sua selvageria esperariam o outro dia? Não! Bastava estar no lugar errado, na hora errada, e adeus, garoto. Viraria alimento para a terra, ninguém saberia de suas desventuras e de suas possíveis premonições da morte iminente. Que triste.
Não adianta ter medo das coisas. Evitar a sucessão de momentos de prazer - consequentemente, e não, causalmente, de risco - em nome de uma tal segurança não impede o individio de se ferrar, se for este o parecer final do acaso. Cada batida de seu coração deveria ser um passo adiante; cada carpe diem cuspido de uma boca por impulso deveria ser uma atitude de paz interior; cada grito contido em um sorriso deveria ser o pulsar de veias histéricas a bombear sangue na face franzida. Enfim, cada segundo de uma vida com letras maiúsculas deve se tornar algo intenso e acíclico, livre de sucessões monótonas, de ponteiros métricos caminhando num círculo numerado.
Conhece o ditado de viver cada dia como se fosse o último? E o de contar a vida em momentos, não em segundos? Pois é. Esses clichês da vida cotidiana que ninguém ouve, foram justamente as partículas de poeira literária que saíram dos meus cadernos empoirados, como mensagens póstumas de um garoto frustrado, que agora chegam às mãos de um quase-adulto, dono, por sua vez, de um sorriso no rosto que não mais é fachada de nada, e sim reflexo. Caminhando por entre estantes fictícias no meu quarto, em uma noite comum e desprovida de luar, descobri que não paro de mudar. Nunca fui o mesmo por mais do que três dias, nem nunca o serei. Se agora não temo as ruas e o asfalto, temo os edifícios e os ternos engomados de daqui a quatro anos. Leia-se: continuo temendo o mundo selvagem de outrora, só que agora ele é caoticamente frio. Ah, pedacinhos de lembranças, espero que o vento não lhes leve embora... gostei de me lembrar do quanto as coisas podem ser difíceis para um garoto, e do quão pouco elas podem significar no futuro. E do quanto sou idioticamente reflexivo.
"Se pegar as mãos e fechá-las dando uma volta em torno de si, você vai pegar pedacinhos de você que se desprendem no ar", um professor de histologia arrisca dizer.
Quem há de arriscar dizer que a minha alma também libera fragmentos com o eterno tic-tac dos momentos que se sucedem?
José Augusto Mendes Lobato 06/07/06
Meu Deus, como eu cresci! Nem acredito que eu era aquele que temia o ano que estava por vir, o dia em que colocaria meus pés no asfalto. É engraçado lembrar de como já temi as coisas mais exdrúxulas. Recordo-me de dias lisérgicos, regados a cerveja e vinho, onde pensava comigo mesmo:"E se hoje for meu último dia? Será que estou aproveitando ele?", e dava risada da minha própria insegurança. Depois que me acordava sentia, então, a sensação de quem jamais tinha aproveitado o último dia sob os covardes lençóis do entorpecimento. Mas o mundo e sua selvageria esperariam o outro dia? Não! Bastava estar no lugar errado, na hora errada, e adeus, garoto. Viraria alimento para a terra, ninguém saberia de suas desventuras e de suas possíveis premonições da morte iminente. Que triste.
Não adianta ter medo das coisas. Evitar a sucessão de momentos de prazer - consequentemente, e não, causalmente, de risco - em nome de uma tal segurança não impede o individio de se ferrar, se for este o parecer final do acaso. Cada batida de seu coração deveria ser um passo adiante; cada carpe diem cuspido de uma boca por impulso deveria ser uma atitude de paz interior; cada grito contido em um sorriso deveria ser o pulsar de veias histéricas a bombear sangue na face franzida. Enfim, cada segundo de uma vida com letras maiúsculas deve se tornar algo intenso e acíclico, livre de sucessões monótonas, de ponteiros métricos caminhando num círculo numerado.
Conhece o ditado de viver cada dia como se fosse o último? E o de contar a vida em momentos, não em segundos? Pois é. Esses clichês da vida cotidiana que ninguém ouve, foram justamente as partículas de poeira literária que saíram dos meus cadernos empoirados, como mensagens póstumas de um garoto frustrado, que agora chegam às mãos de um quase-adulto, dono, por sua vez, de um sorriso no rosto que não mais é fachada de nada, e sim reflexo. Caminhando por entre estantes fictícias no meu quarto, em uma noite comum e desprovida de luar, descobri que não paro de mudar. Nunca fui o mesmo por mais do que três dias, nem nunca o serei. Se agora não temo as ruas e o asfalto, temo os edifícios e os ternos engomados de daqui a quatro anos. Leia-se: continuo temendo o mundo selvagem de outrora, só que agora ele é caoticamente frio. Ah, pedacinhos de lembranças, espero que o vento não lhes leve embora... gostei de me lembrar do quanto as coisas podem ser difíceis para um garoto, e do quão pouco elas podem significar no futuro. E do quanto sou idioticamente reflexivo.
"Se pegar as mãos e fechá-las dando uma volta em torno de si, você vai pegar pedacinhos de você que se desprendem no ar", um professor de histologia arrisca dizer.
Quem há de arriscar dizer que a minha alma também libera fragmentos com o eterno tic-tac dos momentos que se sucedem?
José Augusto Mendes Lobato 06/07/06
domingo, 2 de julho de 2006
Porque as pessoas são tão diferentes?
- Ahhh, amor, deixa eu fazer isso...
- Não, você sabe que eu não gosto!!!
- Tá, não tem problema... (segue um silêncio engraçado e uma mudança de assunto)
Essa situação acontece com todo mundo, né? É a hora em que um dos dois tem que ceder em nome da convivência, como um fumante que pára de fumar porque ela não gosta, ou um namorado que evita apertar a barriguinha da namorada porque ela odeia. É crucial, essencial. O final da cena - que pode culminar em um bom diálogo ou em uma briga boba - depende do nível de maturidade das pessoas em conviver com as diferenças das outras, mas em geral todo mundo já se viu enrolado no famoso impasse de opiniões e gostos. Afinal, porque as pessoas têm que desenvolver gostos tão variados, e, consequentemente, encontrá-los tanto? Às vezes acho que tenho uma boa explicação.
Imagine o que seria acordar com você mesmo deitado ao seu lado. Todo dia. Toda manhã. Ouvir no seu ouvido todas as deslumbrações e asneiras que você pensa consigo mesmo (e conclui, no fim, que é um punhado de merda), viver seus dias tragado na sua realidade, como que andando de mãos dadas com o que idealiza, sabendo tudo sobre aquelas pessoas com quem convive, não existindo sequer um pingo de mistério por trás dos olhos que encara por anos a fio. Seria algo realmente perturbador, sem dúvida.
A uniformidade é antievolutiva, por assim dizer: vai contra a mutabilidade do homem e contra a compatibilidade dos extremos, coisa muito necessária para nós. Talvez seja por isso que busquemos inconscientemente calor humano, e esse bem diferente do que temos dentro de nós, em nome da "diversidade". Aprendemos muito com pessoas diferentes, descobrimos defeitos que nem sempre estamos dispostos a descobrir a sós, ensinamos a viver enquanto aprendemos o mesmo. É uma troca de energia e informação. Por isso que é muito bom namorar, criar laços afetivos, até mesmo implicar com pessoas diferentes de nós. Extraímos delas sempre boas informações que, cedo ou tarde, vão servir para a gente.
Quanto a quem deve ceder... isso depende dos gênios. Gênios fortes geralmente são mestres da situação e sabem impor sua vontade tranquilamente, e os de gênio suave tendem a aceitar isso, sem no entanto se entregar sem estribeiras à vontade alheia. Nas entrelinhas, porém, todos têm sua vontade feita: aos "dominadores", a vontade feita; aos "dominados", o prazer de satisfazer seus pares e, vez ou outra, dominar secretamente. Quanto à essa mistura, essa verdadeira cagada de mentalidades, é ela que faz da vida afetiva algo tão caloroso, cheio de diversidades e divertido de se viver. Filtro solar à parte, a boa dica para se viver intensamente é ter ao lado alguém diferente de você, que respeite sua opinião e saiba, com você, olhar sempre os dois lados da moeda antes de jogá-la no bolso.
Agora, se alguém vier lhe perguntar porque as pessoas são tão diferentes e podem dar certo, lembre-se do que o ser humano nu em pêlo aqui vos fala:
Elas são assim para que possam, cedo ou tarde, amar.
José Augusto Mendes Lobato 02-03/07/06
- Não, você sabe que eu não gosto!!!
- Tá, não tem problema... (segue um silêncio engraçado e uma mudança de assunto)
Essa situação acontece com todo mundo, né? É a hora em que um dos dois tem que ceder em nome da convivência, como um fumante que pára de fumar porque ela não gosta, ou um namorado que evita apertar a barriguinha da namorada porque ela odeia. É crucial, essencial. O final da cena - que pode culminar em um bom diálogo ou em uma briga boba - depende do nível de maturidade das pessoas em conviver com as diferenças das outras, mas em geral todo mundo já se viu enrolado no famoso impasse de opiniões e gostos. Afinal, porque as pessoas têm que desenvolver gostos tão variados, e, consequentemente, encontrá-los tanto? Às vezes acho que tenho uma boa explicação.
Imagine o que seria acordar com você mesmo deitado ao seu lado. Todo dia. Toda manhã. Ouvir no seu ouvido todas as deslumbrações e asneiras que você pensa consigo mesmo (e conclui, no fim, que é um punhado de merda), viver seus dias tragado na sua realidade, como que andando de mãos dadas com o que idealiza, sabendo tudo sobre aquelas pessoas com quem convive, não existindo sequer um pingo de mistério por trás dos olhos que encara por anos a fio. Seria algo realmente perturbador, sem dúvida.
A uniformidade é antievolutiva, por assim dizer: vai contra a mutabilidade do homem e contra a compatibilidade dos extremos, coisa muito necessária para nós. Talvez seja por isso que busquemos inconscientemente calor humano, e esse bem diferente do que temos dentro de nós, em nome da "diversidade". Aprendemos muito com pessoas diferentes, descobrimos defeitos que nem sempre estamos dispostos a descobrir a sós, ensinamos a viver enquanto aprendemos o mesmo. É uma troca de energia e informação. Por isso que é muito bom namorar, criar laços afetivos, até mesmo implicar com pessoas diferentes de nós. Extraímos delas sempre boas informações que, cedo ou tarde, vão servir para a gente.
Quanto a quem deve ceder... isso depende dos gênios. Gênios fortes geralmente são mestres da situação e sabem impor sua vontade tranquilamente, e os de gênio suave tendem a aceitar isso, sem no entanto se entregar sem estribeiras à vontade alheia. Nas entrelinhas, porém, todos têm sua vontade feita: aos "dominadores", a vontade feita; aos "dominados", o prazer de satisfazer seus pares e, vez ou outra, dominar secretamente. Quanto à essa mistura, essa verdadeira cagada de mentalidades, é ela que faz da vida afetiva algo tão caloroso, cheio de diversidades e divertido de se viver. Filtro solar à parte, a boa dica para se viver intensamente é ter ao lado alguém diferente de você, que respeite sua opinião e saiba, com você, olhar sempre os dois lados da moeda antes de jogá-la no bolso.
Agora, se alguém vier lhe perguntar porque as pessoas são tão diferentes e podem dar certo, lembre-se do que o ser humano nu em pêlo aqui vos fala:
Elas são assim para que possam, cedo ou tarde, amar.
José Augusto Mendes Lobato 02-03/07/06
Assinar:
Postagens (Atom)