sábado, 1 de agosto de 2009

U2, 360º


Prólogo

A chegada foi conturbada. Pouso em Girona, 30 e sei lá quantos graus do calor seco e insuportável de uma cidadezinha próxima ao Mediterrâneo. Isso depois de duas horas de voo, mais uma hora de trem em Portugal, de madrugada e no frio. Somou-se a isso mais uma hora e meia de ônibus – e engarrafamentos em “vias expressas” mais lentas que a Almirante Barroso – até chegar a Barcelona, o destino final. A meta: deixar as coisas no hotel o quanto antes e correr para o show do U2. Faltava pouco. Foi um dos passeios a pé mais agoniados que já fiz, o da Estació Nord até o hotel em que tínhamos reserva.

Era um prédio pichado e antigo, mas muito confortável, situado no Bairro Gótico. Também, dane-se: conforto para quê? Deixamos as coisas e, sem sequer lavar o rosto ou escovar os dentes, corremos à rua. Dois amigos nos aguardavam com o ingresso em mãos. Descobrimos que, dali até a hora do show, ainda restava um punhado de tempo. Dava para dar um passeio e conhecer um pouco de Barcelona – a charmosíssima capital secundária da Espanha, que nem espanhol fala oficialmente, de tão singular.

Turistas e mais turistas se acotovelavam nas benditas Ramblas – muitos ali estavam pelo mesmo motivo que nós, creio. O céu era irreal, um azul-bebê sem quaisquer manchas nebulosas. A umidade era tão baixa que mal suávamos, mesmo sob os 38º C. Era incômodo, mas tranqüilizava: pelo menos não vai chover à noite. Caminhamos rapidamente pelas ruas apertadas do bairro Gótico, cheias de casarões, muralhas romanas do século IV e lojinhas de souvenires de gosto duvidoso.

A cidade tinha, sim, todos os motivos para nos conquistar – até pelo clima de festa em que estava imersa, em pleno verão. Charmosa, caótica e bem-cuidada, mesmo com a má educação dos turistas, é uma típica metrópole europeia. Mas não era o foco central da coisa, pelo menos ainda não. Já por volta das 16h, rumamos para o metrô mais próximo e seguimos até a estação Collblanc (não esqueço esse nome). Ela ficava na zona oeste de Barcelona, a poucos metros do Camp Nou, o charmoso estádio do “Barça” onde seria a abertura da turnê “360º”.

Havíamos conseguido ingressos promocionais na internet enquanto ainda reservávamos passagens para as férias na Europa, uns 100 euros abaixo do que os cambistas vendiam no dia. Eu e um amigo conseguimos fazer tudo pelo MSN. Tentamos, eu no Brasil, ele em Portugal. Estava no trabalho e arrumei uns segundos para tentar a sorte no U2.com. Consegui quatro lugares (marcados) na arquibancada, logo ao lado do palco. Na pré-venda. Saiu tudo por 55 euros a cabeça. Passamos tudo num cartão e dividimos a fatura. Só de lembrar dos ingressos de 400 reais que muita gente comprou para ver o show deles no Brasil, em 2006, senti um alívio absurdo. Valia, e muito.

Parecia brincadeira, então, olhar para aquele ingresso nas mãos e que faltavam, sei lá, umas quatro horas. Dali em diante, tudo era suportável: a cerveja de quatro euros (12 reais em uma latinha!!!), o calor absurdo, a demora e até a banda de abertura Snow Patrol, que, apesar de bem intencionada, não tinha o peso e intensidade em palco necessários para acalmar as 90 mil pessoas que se acotovelavam no estádio.

O show


Pontualmente às 22h – afinal, eles são da Irlanda... Reino Unido, pontualidade, etc., entendeu? –, eles subiram ao palco. Ainda fazia sol, por conta daquele fenômeno lindo que é o verão europeu; parecia ser umas 17h30, com aquela iluminação amarelada e meio suja que costuma banhar os prédios aqui de Belém (o calor era o mesmo, ou até maior). Estávamos em um lugar até privilegiado, também havia telões em todos os cantos e o palco era naturalmente um círculo (daí o nome da turnê). Para completar, minha mãe levara um binóculo – “só para ver o Bono”, disse ela, enfaticamente. Confesso que fiquei um tanto surpreso ao ouvir os acordes iniciais de “Breathe” ressoarem no estádio logo após a ovacionada entrada de Bono (vocal, guitarra), The Edge (guitarra, teclado), Adam Clayton (baixo) e Larry Mullen Jr. (bateria)... era uma daquelas músicas que não tinham me fascinado em “No line on the horizon” (2009), o novo disco deles. Mas, como é de praxe do U2, aquela canção funcionou bem, muito bem, ao vivo.

Eles são especialistas em fazer isso: experimente ouvir “Mofo”, “Elevation”, “Out of control”, “Zoo station” e tantas outras músicas de abertura de turnê em suas versões de CD; veja se elas têm o mesmo impacto. Não: foram feitas para a performance, para o improviso; são um chamativo para aumentar o calor no palco e a gritaria na plateia. E foi isso que eles conseguiram com aquela cançãozinha simples de três minutos, cujo maior trunfo são os agudos de bono e o ritmo quebrado, cadenciado. Foi aí que caiu de fato a ficha, e eu percebi que realizava um sonho antigo: o de ver esses caras ao vivo, em boa forma e no início de uma turnê megalomaníaca, daquelas que só aparecem de década em década.

Sempre fui do tipo que coleciona tudo o que a banda preferida lança. Tenho praticamente todos os DVDs do U2 – os que faltavam comprei antes do show, nas FNACs de Portugal –, além de uma pilha de discos originais. Só o “Zooropa” (1993) que não tenho em sua versão, digamos, “oficial”. Por conta desse vício saudável, conhecia, minuto por minuto, todos os detalhes de cada turnê deles – a crueza das digressões feitas entre “Boy” e “War”, o exagero estético da “Popmart”, o experimentalismo da “Zoo TV”, o minimalismo da “Elevation tour” e o retorno às raízes com a “Vertigo tour” . Só que, agora, já tinha idade e condições suficientes para encarar vê-los a cores, logo à minha frente. Era o que transcorria ali, diante de meus olhos, naquela calorenta noite em Barcelona. Aquele palco absurdo, aquele telão em 360º que permitia a todos ver o quarteto de perto, aquele exagero de detalhes.

Para o deleite dos fãs mais novos, os U2 usaram do primeiro terço de show para alternar novidades com clássicos que, há tempos, não figuravam em seus setlists. O vai-e-vem de épocas foi inspirado: primeiro a sequência de novidades “No line on the horizon”-“Get on your boots”-“Magnificent”, com esta última levando muita gente ao céu. É, provavelmente, a melhor faixa que o U2 compôs desde “Walk on”. E, ao vivo, soa ainda mais bela que no CD. Em seguida, o megahit “Beautiful day” serviu para trazer muita gente de volta ao chão, só para berrar junto aquele refrão sob a acústica privilegiada do Camp Nou.

Somente aí Bono, com seu habitual carisma e capacidade de fazer-nos sentir na sala de sua casa, resolveu bater um papinho com o público. Disse que adorava Barcelona, adorava começar a turnê por ali e blá blá blá. Seu bate-papo foi cortado pelo dedilhado de “I still haven´t found what i´m looking for”, clássica do “The Joshua tree” (1989) que há tempos não ganhava espaço no repertório da banda. E daí em diante veio uma penca de músicas inesperadas: “Angel of harlem” – que, ao final, ganhou vocalizações de “Don´t stop ´til you get enough”, o hit embrionário de Michael Jackson, em uma homenagem de Bono ao cantor falecido dias antes –, “In a little while”, “City of blinding lights” e até “The unforgettable fire”, a belíssima faixa-título do disco de 1984 que, essa sim, nunca tinha visto em sets ao vivo do U2.


Foi nela e na faixa anterior, “Unknown caller” – uma das melhores do novo CD –, que percebi a dimensão da nova turnê. Antes que essa última fosse anunciada, Bono disse ter em mãos uma surpresa: queria bater um papo com umas pessoas que viam o show de longe, bem longe. E não é que ele falava sério? O telão do palco projetou a imagem dos astronautas da International Space Station (ISS), que assistiam ao show de camarote lá do espaço. Eles bateram papo com a banda, empunhando cartazes e falando de sua rotina. Depois, como se aquilo fosse a coisa mais normal do universo, o grupo tocou “Unknown caller”, “The unforgettable fire” e “City of blinding lights” numa porrada só, sem interrupções para perguntar: “E aí, o que vocês estão achando”? Eu, como as outras 90 mil pessoas que estavam no Camp Nou, fiquei boquiaberto. Realmente não há limite para esses caras...

Daí em diante, foram surpresas atrás de surpresas. Um remix em versão trance deu nova roupagem à bonitinha “I´ll go crazy if i don´t go crazy tonight”, outra das que não me haviam fisgado em “No line on the horizon”. “Sunday bloody Sunday”, “Pride (in the name of love)”, “Walk on” – esta utilizada para a mensagem politizada de praxe dos shows da banda – e “Where the streets have no name” foram a mesma coisa de sempre: lindas e bem apresentadas, com Bono em sua melhor forma vocal, como não se via desde os tempos da “Elevation tour”. E, no meio disso tudo, duas canções que ninguém esperava: “MLK”, aquele interlúdio a capella do CD “The unforgettable fire” (1986), e “Ultraviolet (light my way)”, aquela canção a la Bon Jovi que figura, meio sem quê nem porquê, no disco “Achtung baby”. Tudo milimetricamente pensado, com um errinho aqui e outro acolá, mas nada que quebrasse o ritmo da apresentação.

A parte final da noite serviu para que eu, já rouco e sem forças para ficar em pé – a roupa que estava usando desde a madrugada daquele dia estava imprestável, encharcada –, aproveitasse os assentos marcados da arquibancada. Com “One” e “With ou without you”, o U2 me fez pensar em várias coisas. Na Mayara, que já contava os dias para rever, na viagem que fazia, em que tudo havia dado certo até ali, nos aprendizados e vivências que levava da minha primeira ida à Europa, nos meus planos para o ano que vem... enfim, pieguices que são muito válidas, ainda mais quando inspiradas por dois hits óbvios, porém inevitáveis, daquela turnê-revolução. Acendi o isqueiro e deixei a idiotice de fã me levar junto.

Para encerrar, como já é de praxe desde os tempos da “Popmart”, o U2 se valeu de uma composição cadenciada e, até então, pouco valorizada pelos fãs: “Moment of surrender”. Apesar de não ser lá um destaque do novo disco, ela merecia estar ali. Tem uma das linhas vocais mais difíceis de se executar ao vivo – e Bono fez bonito nela, mesmo após mais de duas horas do show – e um refrão com todo o climão de despedida, bonito como a maioria dos arranjos do U2.

Conforme ela ia chegando ao final, Bono começou a despedir o grupo, dizer que aquela noite fora memorável. Todo mundo estava acabado, incluindo eles. Mas satisfeito de uma forma inexplicável. Saímos do estádio, eu, minha mãe e mais dois amigos, ainda meio extasiados. Nem havia me tocado que “New year´s day”, minha canção preferida do U2 – e, provavelmente, de 80% dos que ali estavam – não havia sido tocada. Mas tudo bem, não tinha problema: já fazia uns 25 anos que Bono tinha de cantá-la umas 60 vezes por ano. Dava para relevar, só dessa vez: eles tinham compensado, e muito. Se reclamasse, perdia a graça.

Epílogo

A volta foi uma porcaria. Fomos esmagados por um mar de gente suada dentro do metrô fétido e apertado de Barcelona, a estação de trem em que faríamos a troca de linha estava lotada, a linha central fechara, tive uma daquelas crises ridículas e vergonhosas de claustrofobia. Caminhamos a pé por umas duas horas naquelas ruas vazias, escapamos de um assalto (tenho certeza!), perdemos a direção no mapa. E, por fim, após desistir de procurar táxi, pegamos um ônibus na Plaça de Espanya – lugar sombrio, mas charmoso – para chegar ao hotel. Fumamos aquele cigarrinho sagrado na varanda, com a vista para o Bairro Gótico. Ainda tinha um mar de gente nas ruas.

No dia seguinte, acordei cedo e fui passear pela cidade com minha mãe. Fizemos um city tour bem fast-food, daqueles com direito a ônibus colorido e fonezinho de ouvido com músicas tradicionais. Passamos rapidamente pelos pontos turísticos, conhecemos as (centenas de) zonas da cidade e, por fim, demo-nos a oportunidade de caminhar calmamente pela área próxima ao hotel – minha preferida de lá, de longe. Ah: compramos o jornal e lá estava uma foto do show estampada na capa. A manchete do dia eram eles.

Depois almoçamos, pegamos ônibus para o aeroporto de Girona, brigamos com os funcionários da Ryan Air à hora do check-in, fomos obrigados a pagar uma taxa inexplicável (vamos pedir o reembolso!). Discuti com a gerente, primeiro em espanhol, depois em inglês (tinha perdido a paciência para me enrolar falando); ela riu da minha cara, disse que teríamos de pagar, senão não iríamos embora da Espanha. Depois de uma hora e meia de voo – horrível, por sinal – chegamos de volta ao Porto, em Portugal, pegamos um metrô de superfície rumo à estação de trens intermunicipais, chegamos à estação São Bento, esperamos mais um pedaço de hora, pegamos o “comboio” para Aveiro... e chegamos em casa. Lá pelas 22h.

E quer saber? Valeu a pena todo esse trabalho.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Le temps


Lembro direitinho do tempo que fazia na estrada de Belém para Salinas na semana do réveillon de 1996. Ou seria 1997? Enfim. Tinha uma nuvem imensa, amarelada, no céu típico de final de ano. Àquela época, as chuvas eram mais intensas e o "inverno" já dava seus primeiros sinais desde as luzinhas de Natal. A gente sempre passava a virada em Salinas ou na Assembleia, geralmente com toda a família reunida. Daquela vez, fomos ao balneário e tivemos azar - choveu do primeiro ao último dia. Foi isso que me marcou, creio.

Era o mesmo tipo de chuva que caiu à tarde e noite de hoje aqui em Belém, em 27 de abril de 2009. Respingos teimosos, que molharam a janela do meu carro, do meu quarto, porque eu teimei em ficar fumando. Eles me fizeram lembrar, sei lá por qual motivo, de coisas que achei por bem escrever nesse blog, só para arredar a poeira, mesmo.

Eu costumava gravar fitas cassete de 30 minutos e dois lados para a família ir ouvindo no caminho para Salinas. E também no caminho para as praias - àquela época, não tinha engarrafamento para o Atalaia... -, geralmente por volta de 10h, que era a hora que eu e meus pais gostávamos de ir (a Clarissa e a Isabela, no auge da adolescência, ficavam possessas, mas era o jeito... democracia familiar). Enfim, as fitinhas custavam uns R$ 3, mais ou menos o que custa um DVD pirata dos blockbusters mais recentes na Doca de 2009.

O papai tinha acabado de comprar aquele Ford Mondeo cor vinho - surradíssimo quando foi vendido, agora em 2005 -, e nós nos achávamos a família mais única do mundo indo para o Atalaia num importado 1.8, ouvindo sucessos da época em áudio mono. Lembro que as meninas adoravam aquelas cantoras trash da estirpe de Mariah Carey e Celine Dion, mas às vezes até que gostavam de ouvir alguma dos Beatles. Já eu gostava de U2 (o "Unforgettable fire" foi o primeiro CD deles que ouvi, a Rita tinha uma cópia), Beatles, Elton John (ihhhh...) e umas coisas de menor valor. A mamãe não tinha grandes preferências. Já o papai adorava aquelas coisas Diário-FM-às-duas-da-manhã: Credence Clearwater Revival, The Fevers, Tim Maia, Roberto Carlos.

Como que atingido por uma pontada de profissionalismo, esmerava-me naquelas gravações e acabava agradando todo mundo. Naquele 1996, passei a véspera da viagem gravando a bendita fita na sala de nosso antigo apartamento, lá em Batista Campos. Na verdade, comprei duas fitinhas virgens para que nosso repertório fosse bem variado. R$ 6. Comprei-as na lojinha do CEO, a escola em que a gente estudava. Botei, de um lado, o que gostava. Do outro, o que as meninas queriam. As do papai ficavam espalhadas pelo meio, já que ele era o que tinha de ficar acordado e ouvir tudo, no final das contas.

Lembro que começou a tocar "Pride" do U2 quando a gente passava por aquela bizarríssima plantação de pinheiros (?!?!?) em plena selva amazônica que fica logo depois de Castanhal, no meio da estrada. Chovia muito, o trânsito estava um lixo. Todo mundo dormia, menos eu e o papai, que estava dirigindo (graças a Deus, né?). Não sei por que, aquele momento teve algo de marcante e ficou na minha cabeça até hoje. O Bono berrando "What more in the name of love?" naquele carro tinha algo a ver com os pinheiros teimosamente saudáveis no clima equatorial.

Naquele feriado, lembro que nosso apartamento estava uma bagunça. Eram três quartos para três núcleos familiares: de um lado, a vovó e o vovô; do outro, Tia Sandra, Tio Carlos, Lígia e Marina; e do outro, eu, mamãe, papai, a Clarissa e a Isabela. Ninguém se arriscou a dormir na rede da sala com medo dos carapanãs e morcegos. Só um banheiro para todo mundo. A gente chegava da praia e fazia fila.

Lembro que a Isabela ficou doente de alguma coisa e só podia se alimentar tomando sorvete (hepatite? Sei lá). Aí eu ficava entornando potes de sorvete napolitano com ela - "os dois gorduchinhos". À noite, saía para passear com a mamãe em volta do prédio, para curtir a lanterna que tinha comprado e gostava de focalizar nas ruas escuras da orla do Maçarico (adorava lanternas, não me pergunte por que).

Àquela época, sei lá por que motivo, Salinas era um lugar pacato. Toda vez que tínhamos algum estresse, alguma bronca familiar coletiva, íamos para lá. Ou então quando todo mundo estava de férias. Em 1996, as duas coisas faziam sentido. Todo mundo estava de folga. Só fui saber, anos depois, que aquele ano era o começo do fim do casamento dos meus pais, eles andavam meio mal. Para mim, no entanto, nos meus imbecilíssimos sete anos de idade, era só um ano novo longe de Belém.

O réveillon foi divertidíssimo. Fomos à praia (não lembro se Atalaia ou Farol Velho), passamos a virada e mais alguns minutos por lá. Lembro que, desde aquela época, não desgrudava da mamãe por nada. Era visto até como mimado, preferidinho-cuti-cuti-protegido dela - o que, de fato, era - e gostava de ficar atrás da coitada, dando ordens nela, pedindo comida, sei lá. Foi nesse ano, creio eu, que aconteceu um episódio clássico em que mandei ela ir dormir comigo às dez da noite, sendo que ela estava jogando baralho com os amigos - e o pior: ela obedeceu.

Enfim, passamos a virada na praia. Aí veio a chuva de novo. E, junto com a chuva, mais um respingo de memória auditiva. Uma música do Fruta Quente, creio eu, uma base em acordes maiores que nem sei cantarolar. Estava encostado num cantinho da barraca e vi os fogos explodindo. Abracei todo mundo que via pela frente (sempre fui sociável) e fiquei olhando para o mar. E daí não lembro de mais nada até uns dois anos depois.

Não sei bem o motivo, mas essa viagem ignóbil fincou raízes. Ela voltou à mente hoje de noite, enquanto eu olhava o movimento da rua com a chuva. Querendo ou não, esses momentos em que a memória dá um sobressalto nos são de extremo valor. Eles trazem de volta um pouquinho do que a gente foi e nem se lembra - em meu caso, lembrou de uma infância que aos poucos vai ficando longínqua e surreal. Tanto nas imagens quanto nos sons, na essência mesmo.

Faz uns três anos que não vou a Salinas - fui ano passado a trabalho, mas prefiro nem contar. Não consigo arrumar tempo nem um motivo bom para perder finais de semana por lá. A cidade é um caos, vive lotada de playboys bêbados dirigindo Hiluxes do papai com placas de Paragominas, Marabá e Tailândia. As praias fedem a cerveja, mijo e churrasco de gato. A maré sobe demais, os carros se entalam. Os arrombadores fazem plantão diante de predinhos bucólicos e pimbudos como o meu.

Falta chuva, o calor está bem pior, mesmo com a brisa da maré. O forró-rala-coxa e o tecnobrega conseguem ser piores que o pagode, a axé music e o pop internacional sofrível dos anos 1990. E, principalmente: o nosso apartamento não é o mesmo. Não tem mais o clima caótico, cada um vive sua vida numa boa e passa por lá quando as férias do trabalho permitem. Ainda é nosso lar, mas não tem alguns elementos essenciais que não vale a pena listar. Nada que envolva a unidade familiar ou algo do tipo; é uma questão de época, e só.

Sabe aquele clichê de que a gente não é o mesmo de um minuto atrás? Pois é: a vida é um ciclo, mas às vezes a gente muda o ponto da circunferência. Gira em torno de outros eixos, enfim. Àquela época o eixo era outro, bem mais fácil, bem mais simples. As fitinhas de 30 minutos e dois lados, certamente, eram mais divertidas, embora mais rústicas, que o CD, o DVD e o MP4 que está carregando a bateria no computador de 250 GB neste momento. O Ford Mondeo era mais possante que o Celta vagabundo em que passo pelo menos 1/6 de meu dia dirigindo no trânsito nojento de Belém (sempre correndo). Talvez por isso, por tudo isso, não vá lembrar das coisas por que passo hoje com a mesma intensidade daqui a alguns anos. É tudo rápido demais, um lema pós-moderno que nem vale estender por mais linhas.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Quase-experiência de quase-morte transforma a vida de jovem belenense



O título acima é quase de jornal, mas dá todo o significado ao relato que se segue. Na véspera do ano-novo, quase as coisas se invertem e eu viro notícia de caderno policial. Calma, paraenses ávidos por mais uma notícia mórbida - não fui assaltado, linchado pela população ou atropelado por um ônibus no Entroncamento, nada disso. O fato é que quase fui atingido na cabeça por uma janela que caiu de sei lá que andar no prédio de minha tia. Não só eu, mas minha namorada, minha irmã, meu cunhado e minhas duas primas.

O objeto pontiagudo e quebradiço se espatifou a cerca de dez centímetros de nossas cabeças; quase que todo mundo leva o farelo. Quando a gente se acostuma à iminência da morte, as coisas ficam mais fáceis de assimilar - e, para quem mora em uma cidade como Belém, era de se esperar que um susto cotidiano desse não fosse gerar tamanha comoção. Mas gerou, pelo menos em mim. Repensei minha vida às vésperas do reveillon - e desta vez, sem ironia!

Enfim, vamos aos fatos: nós tínhamos acabado de chegar ao aniversário da minha tia, e, como bom núcleo jovem de família portuguesa, decidido fumar um cigarro lá fora. Era, sei lá, umas nove e pouco da noite, o céu estava todo estrelado. Nem sinal de chuva (por sinal, cadê nosso "inverno" amazônico? Hã, hã?). Acendemos o cigarro e começamos a bater papo.

Os assuntos eram vários - viagens já feitas, planos para o futuro, memórias de infância... todo mundo estava tranqüilo, sem trabalho acumulado, sem brigar feio com ninguém, sem vontade de ir ao banheiro, nada. Só com fome - e muita (lá dentro, os pais e avós já estavam atrás da gente). Ali, estavam reunidos familiares que moram em Belém, em Marabá e em Portugal, lá onde a violência (quase) não chega.

Pois bem, o tempo foi passando e, um ou dois cigarros depois, nosso círculo de bate-papo deu uma mudada normal de posição. Antes estávamos mais unidos e diante da porta; agora, todo mundo estava no meio do corredor a céu aberto, curtindo a brisa. Do nada - e quando digo "do nada", é do nada mesmo! - teve um barulho. Antes que desse para olhar pra cima, uma janela de banheiro se espatifou ao nosso lado, caindo lá do décimo sei-lá-o-quê andar.

Alguns cacos de vidro voaram nos pés da minha prima caçula, mas antes de qualquer coisa a gente saiu correndo para dentro do prédio, gritando de "puta que o pariu" para baixo. Quando olhamos para o lado de fora, vimos a dimensão da bicha: ela tinha um metro de largura, mais ou menos. E caiu a um ou dois passos de distância de mim - quem ia se foder era eu, de fato.

Nunca dei uma de ateu, mas às vezes confesso que a minha crença fica abalada em meio à rotina de trabalho no jornal - quando a gente vê tanta desgraça que parece não crer na beleza e positividade da vida. Deixei de freqüentar a Igreja por questão de hábito, mas até hoje me considero católico e acredito em Deus - por isso, cheguei à conclusão de que, se a vida é frágil, é porque há alguém apto para protegê-la ou olhar por nós, sei lá! Naquela queda de janela, alguma coisa deve ter protegido a gente. Não acredito em ventos meridionais ou ângulos de inclinação que a tenham jogado bem ao nosso lado.

Numa crônica divertidíssima que minha namorada me mostrou, a Martha Medeiros comenta sobre isso - como o acaso pode nos pregar peças e nos sacanear, tirando nossa vida enquanto temos milhares, talvez milhões de coisas a fazer nesse mundico. Naquela noite próxima ao ano novo, tudo o que tinha em mente para este ano - meu TCC, minha mudança para São Paulo com a Mayara, meu segundo emprego recém-conquistado, minha mudança de turno na faculdade, meu primeiro ano completado de trabalho - quase foi ceifado por uma porra de janela que resolveu se desprender de uma construção que só visito umas três vezes ao ano.

Conversando com a minha mãe - ah, as mães, sempre tão sábias! -, eu e minha namorada ouvimos palavras de puro empirismo de médica: "É, Mayara, quase que tu viras viúva!". Risadas à parte, a gente olhou um para o outro e pensou: por que não, né? Às vezes, mesmo em uma cidade violenta e tribal como Belém, a gente pode morrer de formas imbecis, daquelas que chegam em nossa caixa de entrada em e-mails de origem duvidosa. E isso sem nunca ter saído com os vidros do carro abertos de madrugada, sem ter pegado um atalho para a Unama da Br-316 pela Pedro Álvares Cabral, sem ter dado carona a um mendigo suspeito. Nada.

A gente toma cuidado para não entrar nas páginas de polícia, mas às vezes morre e ponto. Fazer o quê? Contra essas coisas não há segurança alguma. Naquela noite de dia 30/12/2008, quase viro noticiário policial, mas nada que a gente não supere. O ano já começou, tinha até esquecido do assunto é só lembrei dele depois de ler a crônica da Martha. E depois, com o tempo a gente passa a levar na brincadeira, né? Vou encerrar por aqui com uma reflexão que tive com um amigo. Via Google Talk, ele analisou a quase-experiência de quase-morte e disse tudo:

- Égua, bicho, mas pensa bem... levar uma janelada e ser partido ao meio em Belém é bem mais cult que levar bala na Terra Firme, não é?

- Sábias palavras!