Passados uns dias desde a chegada a São Paulo - um mês e 15 dias, mais precisamente -, já deu para perceber um monte de coisas sobre a cidade. Não que não a conhecesse - mas morando, vá lá, é bem mais fácil perceber os prós e contras de sair de Belém (deixa saudades, ok) e se enfiar numa lata de sardinha de 20 milhões de habitantes. O post é clássico (creio que todo migrante o publique uma vez na vida), clichê até, mas necessário. Não só para tirar a poeira do blog e dar notícias - não sei ao certo para quem -, como também para dar uma pausa nas leituras cabeçudas do mestrado. Vamos a algumas percepções:
1. Paulistas são mais educados que paraenses
Ah, essa eu já imaginava. Mas confirmei desde o primeiro dia na Cásper Líbero: fui bem atendido pelos funcionários (só lembrei dos bibliotecários bem humoradíssimos da Unama), uma acolhida nota dez. Enfim, não só lá, como nas lojas, órgãos públicos, cinemas, restaurantes, e tudo o mais, as pessoas sorriem quando te atendem, ajudam o quanto podem e - ahá! - não fazem cara de dor de barriga quando você pede favor. Ninguém joga lixo na rua, todo mundo cata o cocô do cachorro... todo mundo esculhamba se você não o fizer. Até os órgãos e serviços públicos são mais organizados e arrumadinhos (o metrô que o diga, mas disso falo mais adiante). Único ponto negativo vai para a SP Trans, que atende o povo aqui na Vila Mariana num buraco quente, sujo e pequeno demais para o mar de gente que se acumula por lá. Eu e Mayara passamos uns 40 minutos à espera de atendimento no meio da rua. Mas ninguém rouba sua vez na fila. Só lembrei de Belém...
2. O trânsito é um lixo, mas as pessoas se comportam no volante
Falando em educação, acredite: aqueles engarrafamentos de 150 km que a gente vê na TV não são culpa dos moradores. Ao menos não diretamente. O excesso de carros e as ruas caóticas complicam tudo, mas eu já peguei alguns engarrafamentos (um na Marginal Tietê às 12h, inclusive) e não vi um carro sequer buzinando em 1h40. Nenhumzinho. O povo anda nas faixas certas, dá passagem para todo mundo - chega a irritar - e dificilmente se estressa, assim como evita dirigir "cortando". A única exceção são os motociclistas, desgraçados como em qualquer canto do mundo. Mesmo assim, para quem discorda, há uma alternativa: usar o transporte público, infinitamente melhor que o de Belém. Eu, por exemplo, só dirijo nos finais de semana - e olhe lá.
3. As ruas não têm qualquer sentido
Trânsito de novo. Bom, essa é uma visão negativa, só para ninguém dizer que só faço puxar o saco de SP. Enfim, é fato que, se até morador se perde dirigindo por aqui, era óbvio que eu também sofreria do mesmo problema. E o que deu pra ver foi que, de forma geral, as ruas conseguem ser ainda mais nonsense que em Belém. O sentido delas muda de um quarteirão para o outro - quase causei uma catástrofe numa dessas -, o trajeto que seguia para o sul de repente vai para o leste e tudo o mais. Nas marginais, então, todo erro é fatal, literalmente. Mas pelo menos a sinalização é ótima - tem placa em tudo que é canto, dizendo como chegar nos bairros e etc. Não é à toa que consigo dar umas voltinhas por aí (sem usar GPS, porque a grana anda rala).
4. A cidade é menos perigosa
Prestem atenção, não disse segura. Parece brincadeira, mas uma cidade de 20 milhões de habitantes consegue ser bem menos assassina que Belém. Tem uma pesquisa na internet que já me confirmava isso - mas, agora, senti a diferença no dia-a-dia. O povo fala no celular no meio da rua, dirige de vidro baixo, responde a dúvidas de pedestres (mesmo que só os dois estejam na rua) e sai à noite de metrô. Logo que chegamos, perguntei ao segurança do hotel em que ficamos (no Paraíso) para perguntar se dava para andar na rua àquela hora. Eram 23h de domingo, a rua estava vazia - e o cara disse "claro, fiquem tranquilos". Uma pergunta: em qual rua de Belém você pode dar segurança ao turista? Na Braz de Aguiar? Claro que é preciso tomar cuidado e não ir bater uma bolinha no Capão Redondo, no Grajaú ou algo do tipo, mas enfim... se no Umarizal morrem 15, 20 por ano, na Vila Mariana morreram 2 de forma violenta em um ano inteiro. É isso.
5. O transporte público é insuficiente, embora organizado e limpo
Sou claustrofóbico, isso pode ter influído na conclusão acima. Mas, porra, quem gosta de ser esmagado no metrô às seis da tarde, depois de 7 horas de aula? Só me lembrei de quando voltava da Unama de ônibus no primeiro ano da faculdade - enfiado numa lata de sardinha calorenta e fétida. Pois é: os ônibus, trens e metrôs daqui não chegam a ser assim; não tem ninhos de barata entre os assentos, nem cheiro de cecê da semana passada. O metrô, em especial, é muito limpo, seguro e leva para boa parte dos locais importantes da cidade. Mas é preciso evitar horários de pico e linhas como a Vermelha (já sabia disso desde os tempos de turista). Tem gente demais para poucas linhas, poucos vagões, pouco espaço. Dizem que, com a inauguração da linha Amarela, a coisa vai melhorar nas outras. Por sorte, temos linha Verde e Azul perto de casa. Espero sentado - ou melhor, de pé.
6. O clima é completamente louco
Não, não vou reclamar do clima daqui. É bem melhor do que o hell on earth das manhãs de 35 graus de Belém. Mas é vero - do dia para a noite, literalmente, a gente troca a sunga pelo moleton. E olha que ainda não passei invernão por essas bandas. Chegamos aqui em pleno final de verão. Chuva e temperatura de 20 graus à noite. Uma semana depois, calor seco e temperatura lá pelos 30, 31 graus. Passou o carnaval e caiu novamente. Teve um dia que ficou entre 17 e 20 graus (!). Agora, inferno de novo - a Mayara está tendo que passar manteiga de cacau nos lábios, de tão desértico que o negócio ficou. Sabe a previsão da mulher do tempo? Joga no lixo. Mais fácil perguntar para um nativo que confiar nos órgãos de meteorologia. Ah, e tem um clichê tão válido quanto a chuva da tarde em Belém: sempre, sempre ande com uma roupa de frio escondida na mochila.
7. Paulista não sabe usar subjuntivo
"Cê quer que eu pego?", "Cês quer que traz logo?", "Eu quero que cê faz assim"... urgh. Quem diria que boa parcela dos moradores de uma das cidades com maior nível de educação básica do país falaria sem usar o subjuntivo? Olha que não sou professor de língua portuguesa, mas certas coisas incomodam. Dizem que o português do maranhense e do paraense é o melhor do Brasil; sinceramente, não duvido mais. Nas lojas, nos bares e até naquelas conversinhas que você inevitavelmente ouve no meio da rua, as conjugações erradas imperam. Isso sem contar o gerúndio (e ainda tem gente que implica com o falar cantado do Nordeste). Se já tinha orgulho do nosso sotaque, carregado e autoral na medida certa, agora é que o uso com mais convicção...
8. Comida, gasolina e roupa são mais baratas
Sad but true. Até fruta amazônica consegue ser mais barata aqui em SP. Fazer compras, seja de roupa, seja de gêneros alimentícios, não é tão desesperador quanto em Belém. O esquema é saber pegar os dias de liquidação, em que o quilo da carne sai pela metade e uma roupa de frio sai por R$ 40. E prestar atenção na oscilação de preços, que é bem comum. E a gasolina... ah, a gasolina. Procurando legal dá para achar postos vendendo da comum a R$ 2,39., até R$ 2,34. E não é adulterada: a polícia cai de pau em quem dilui combustível. Lembro dos tempos em que torrava uns 20 reais por dia - já que não existe transporte público em Belém - e abastecia pagando R$ 2,89 (essa foi a última tabela que vi antes de me mudar, já deve ter aumentado). Aqui, se gastar R$ 100 no mês inteiro, é muito. Leveza no bolso e no volante.
9. Os supermercados de Belém são melhores
Isso me surpreendeu. Achava que o Líder, com seus preços nada módicos e suas atendentes bocejantes, eram o que de pior havia no ramo no Brasil. Que nada: vem pro Extra, pro Pastorinho, Carrefour ou o que quer que seja. A única exceção é o Pão de Açúcar, frequentado por gente, como diria um delegado de Belém, do alto staff. Para começar, não tem empacotadores: você mete tudo em saquinhos sofríveis (sempre arrebentam) enquanto se desdobra para checar a nota fiscal, meter tudo no carrinho e passar o cartão. Além disso, as filas são intermináveis e os estacionamentos vivem lotados. Já fui às 12h de segunda-feira e encontrei o supermercado socado de gente. Outro problema é que, por conta da demanda absurda, sempre tem produtos em falta. Demoramos semanas para achar presunto de peru nos supermercados daqui.
10. É uma cidade boa de se viver
E, para finalizar, o momento puxação de saco: SP é, sim, um lugar ótimo. Depende apenas dos interesses de quem para cá se muda. Já fui mais intransigente - questionava quem me dizia que queria viver em Belém o resto da vida, que não se imaginava morando fora do Pará, etc. e tal. Hoje já entendo, até porque não é fácil suportar o ritmo de SP. Trânsito louco, correria, fumaça, empurra-empurra... tem que haver alguma ligação sentimental e/ou financeira (no meu caso, as duas) com a cidade para aturar isso tudo. Se for preciso enumerar qualidades, além das que estão acima, lembremos do clichê: vida cultural assegurada, serviços de todo tipo, a toda hora (o Burger King é a bênção!), muita coisa para se fazer... e, no meu caso, ensino de qualidade. Nunca tinha tido aulas como agora. É nisso que penso quando bate aquela saudade imensa das pessoas, dos lugares que deixei. O investimento vale a pena.
quinta-feira, 11 de março de 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
News

Ontem fez uma semana desde que saí do Formule 1 e me instalei junto à Mayara em nosso primeiro apartamentinho. É pequeno - mínimo, na verdade -, porém extremamente confortável, além de ter uma vista bem urbana (é a que vocês veem na foto; não podia ser mais São Paulo) e um entorno legal - fica na Vila Mariana, a 1,5 km do Ibirapuera. Estamos perto do metrô (duas linhas nos arredores), temos máquina de lavar e tevê a cabo, entre outros confortos essenciais numa cidade grande. Tudo ajeitadinho, enfim.
A vida a dois - sem empregada ou babá tardia - não é tão difícil, tem suas diversões. As tarefas estão bem divididinhas. Ela cozinha, lava e passa roupa; eu lavo louça, dirijo e faço café da manhã e lanches. Até aí, tudo ok - ainda não resolvemos nos arremessar pela janela ou algo do tipo. Quando algo dá errado, é uma piada; a gente se enrola, mas dá risada, se resolve aos trancos e barracos, sem mamãe, Zélia ou Marizete. É a prova de que a tudo o ser humano se adapta. Eu estou aprendendo a mexer em máquina de lavar, por Deus sagrado!
No mais, é aquilo que esperava: estar desempregado e vivendo de mesadinha dos pais é estranho, mas dá para conviver, em especial estando na cidade em que planejava morar desde o início da graduação. Bicos ocasionais têm aparecido para que eu não enferruje, felizmente... só não sei até quando. De qualquer forma, passamos no Mestrado da Faculdade Cásper Líbero - creio que isso vai ocupar minha mente por um bom tempo.
Algumas impressões iniciais da nova casa? Sim. Conforme esperava, a vida em São Paulo é bem menos pacata. Já fomos acordados por helicópteros e aviões que tomam nossa casa como rota de passagem (é relativamente perto do aeroporto e dos trocentos heliportos da Paulista), inclusive de madrugada. O metrô é limpo, organizado, mas um caos por natureza, sobretudo na linha Azul, às seis da tarde. Enfrento minha claustrofobia todo dia. Já peguei engarrafamento na Marginal Tietê, quando voltava com meu carro recém-buscado lá de Guarulhos - detalhe: não chovia nem nada, era engarrafamento por prazer mesmo. Também gastamos umas duas horas do dia lavando banheiro, trocando saco de lixo, etc.
Por outro lado, vejo muitos, mas muitos motivos para tanto nortista e nordestino vir parar aqui (Vila Mariana, por sinal, é um antro de paraense). Primeiro: a violência é, contrariando todo preconceito e senso comum, bem menor que em Belém. Sad but true, mano. Dá para andar na rua à noite, após as 22h, tranquilamente, em boa parte da cidade. Acredito que o transporte público também dê de pau em nossos ônibus repletos de ninho de barata de Belém, bem como a vida cultural, as oportunidades profissionais e os salários. O povo é mais educado, dirige melhor. Ah: quase tudo é 24 horas. Até sex shop full-time tem; já vi um na Rubem Berta.
E os contras?, você deve estar se perguntando. Bom, aqui tem o problema da chuva - que nós, burguesinhos da Zona Sul, não vivenciamos tanto -, do trânsito, que consegue ser pior que o da querida terra natal. Mas nada que supere a saudade dos amigos, da família, da sensação de conhecer a cidade na palma da mão. Isso tudo deixa a coisa dramática. Não pensem que eu, insensível contra todas as expectativas, não senti o peso nas costas.
O dia que deixei a mamãe - sim, ela veio nos ajudar por uns dias - no aeroporto foi foda. Para completar, nos perdemos na volta (sorte que aqui não tem Barreiro próximo do aeroporto, hein). Daqui a duas semanas, é meu aniversário. O primeiro longe dela e do papai. Mas enfim - como disse da vez passada, escolhas são escolhas, e em geral têm ponto positivo de sobra. Esse é o caso. O apartamento já está montado, já entramos no curso que queríamos desde 2007, a vida de "casado" não podia ser mais prazerosa. Não poderia estar melhor...
Aliás, poderia sim. Tá um calor dos infernos aqui, quase (eu disse quase!) tão ruim quanto o de Belém. Faz 33 graus de dia, daí chove e cai para 23 à noite - isso quando cai. Inverno, chega logo. Mesmo que para destruir meus hábitos paraenses.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
#mudançafeelings
É legal abrir a janela do quarto às 12h40 da véspera de Natal, logo após acordar num dia de folga, e ver que o dia está chuvoso. Na verdade, todos os natais em Belém são chuvosos, já reparou? Desta vez estava com medo de ser surpreendido por um solzaço de 36 graus, já que o verão tardou a dizer tchau. Mas não - está um calorzinho suportável. Um mormaço típico dos finais de ano que já me parece meio saudoso.
Eu e Mayara nos mudamos daqui a exatos 30 dias. Lembrei disso na hora em que abri os olhos num de meus últimos finais de semana de folga. Estou de aviso prévio do jornal. Trabalho até o réveillon. Depois do dia 3, as rondas de polícia ficarão na memória. Os delegados, escrivães, colegas de trabalho, matérias especiais de domingo... tudo vai ficar por aqui. E eu vou dar o fora, após quatro anos de expectativa - feliz por me livrar de um punhado de coisas que detesto da minha terra natal, mas triste pelas perdas óbvias. Os amigos, os familiares com quem tomo café e janto (almoçar, só na copa do jornal) e, vá lá, alguns lugares.
Adoro Icoaraci. Mesmo que o distrito seja sujo, fedido, malcuidado e cercado de favelas paupérrimas, não existe melhor exemplar de orla em Belém que aquele lá do Cruzeiro. A praia fede e é imprópria para o banho, mas tem uma calçada onde bate um vento da Belém dos anos 1800. Eu e Mayara pegamos a Augusto Montenegro várias vezes nos dias de folga, só para comer no Na Telha e depois observar aquela paisagem linda, conversando sobre nossos planos para o futuro. Fumar um cigarro vendo aquelas águas barrentas é o tipo de luxo que não vou ter nos mil metros de altitude de São Paulo.
Quem acompanha esse blog sabe que eu reclamo muito daqui. É verdade - e creio que nunca vou desmentir o que já falei, a não ser que as coisas mudem (e torço muito por isso). Mas é natural que, às vésperas da mudança, comece a bater aquela pontada de pré-saudade. Aquela insegurança - meu Deus, será que quando voltar aqui as pessoas vão estar iguais? Não vou mais saber sobre todas elas? E as baixarias do submundo belenense? Só vou poder acompanhá-las nos blogs?
Esse foi um ano extremamente difícil. Perdi a minha querida avó, minha vida social e a da Mayara caíram para zero por conta do TCC, trabalhei em excesso e tive pouco tempo para dedicar a mim e à família. Tive de aturar uma série de injustiças - a mais recente praticada contra minha mãe, uma profissional exemplar - e, vá lá, várias decepções com gente de meu entorno. Mas creio que tenha sido uma espécie de provação. Acredito em Deus e em suas pequenas manobras para nos mostrar que a vida não é tão fácil assim.
Por outro lado, creio que aprendi como nunca nesse ano. Viajei muito com meu suado dinheirinho do trabalho, ganhei de presente da doutora um mês de passeio no Velho Continente, tive um monte de oportunidades sensacionais. Para mim, viagens são essenciais para que nossos olhos se abram, para que a gente amadureça. Não é à toa que meu plano de vida seja juntar grana para viver em aeroportos. Se puder me dar ao luxo, viajo todo final de semana. Melhor que trocar de carro todo mês e morar no trigésimo sétimo andar de uma torre monumental cercada de favelas. É isso.
A chegada desse Natal, já imaginava, me deixaria assim, meio saudoso e pensativo. Neste ano, a ceia vai ser aqui em casa. A vovó estará aqui, muito embora não no sentido físico da coisa. Aqui começa mais cedinho, tipo umas 20h. Depois de comer, seguimos à casa da Mayara, onde a ceia entra na madrugada. E depois é festa - se a gente tiver forças para tanta-coisa-junta-ao-mesmo-tempo-agora.
Fico de folga do jornal e da rádio até domingo. Vou aproveitar estes dias para empacotar meus CDs, DVDs e livros, pensar no que devo levar e no que fica por aqui. É uma tarefa cansativa, mas tem seu quê de fascinação; afinal de contas, já começo a pensar onde pôr esses caixotes no nosso cafofo paulistano. Meu quarto azul, com fresquíssimo papel de parede de barquinhos, vai virar o de visitas, e a minha vaga na garagem será finalmente cedida ao carro do vovô. E é isso. Decisões são decisões - e, como tais, sempre trazem aquele quê de insegurança. E fascinação.
Eu e Mayara nos mudamos daqui a exatos 30 dias. Lembrei disso na hora em que abri os olhos num de meus últimos finais de semana de folga. Estou de aviso prévio do jornal. Trabalho até o réveillon. Depois do dia 3, as rondas de polícia ficarão na memória. Os delegados, escrivães, colegas de trabalho, matérias especiais de domingo... tudo vai ficar por aqui. E eu vou dar o fora, após quatro anos de expectativa - feliz por me livrar de um punhado de coisas que detesto da minha terra natal, mas triste pelas perdas óbvias. Os amigos, os familiares com quem tomo café e janto (almoçar, só na copa do jornal) e, vá lá, alguns lugares.
Adoro Icoaraci. Mesmo que o distrito seja sujo, fedido, malcuidado e cercado de favelas paupérrimas, não existe melhor exemplar de orla em Belém que aquele lá do Cruzeiro. A praia fede e é imprópria para o banho, mas tem uma calçada onde bate um vento da Belém dos anos 1800. Eu e Mayara pegamos a Augusto Montenegro várias vezes nos dias de folga, só para comer no Na Telha e depois observar aquela paisagem linda, conversando sobre nossos planos para o futuro. Fumar um cigarro vendo aquelas águas barrentas é o tipo de luxo que não vou ter nos mil metros de altitude de São Paulo.
Quem acompanha esse blog sabe que eu reclamo muito daqui. É verdade - e creio que nunca vou desmentir o que já falei, a não ser que as coisas mudem (e torço muito por isso). Mas é natural que, às vésperas da mudança, comece a bater aquela pontada de pré-saudade. Aquela insegurança - meu Deus, será que quando voltar aqui as pessoas vão estar iguais? Não vou mais saber sobre todas elas? E as baixarias do submundo belenense? Só vou poder acompanhá-las nos blogs?
Esse foi um ano extremamente difícil. Perdi a minha querida avó, minha vida social e a da Mayara caíram para zero por conta do TCC, trabalhei em excesso e tive pouco tempo para dedicar a mim e à família. Tive de aturar uma série de injustiças - a mais recente praticada contra minha mãe, uma profissional exemplar - e, vá lá, várias decepções com gente de meu entorno. Mas creio que tenha sido uma espécie de provação. Acredito em Deus e em suas pequenas manobras para nos mostrar que a vida não é tão fácil assim.
Por outro lado, creio que aprendi como nunca nesse ano. Viajei muito com meu suado dinheirinho do trabalho, ganhei de presente da doutora um mês de passeio no Velho Continente, tive um monte de oportunidades sensacionais. Para mim, viagens são essenciais para que nossos olhos se abram, para que a gente amadureça. Não é à toa que meu plano de vida seja juntar grana para viver em aeroportos. Se puder me dar ao luxo, viajo todo final de semana. Melhor que trocar de carro todo mês e morar no trigésimo sétimo andar de uma torre monumental cercada de favelas. É isso.
A chegada desse Natal, já imaginava, me deixaria assim, meio saudoso e pensativo. Neste ano, a ceia vai ser aqui em casa. A vovó estará aqui, muito embora não no sentido físico da coisa. Aqui começa mais cedinho, tipo umas 20h. Depois de comer, seguimos à casa da Mayara, onde a ceia entra na madrugada. E depois é festa - se a gente tiver forças para tanta-coisa-junta-ao-mesmo-tempo-agora.
Fico de folga do jornal e da rádio até domingo. Vou aproveitar estes dias para empacotar meus CDs, DVDs e livros, pensar no que devo levar e no que fica por aqui. É uma tarefa cansativa, mas tem seu quê de fascinação; afinal de contas, já começo a pensar onde pôr esses caixotes no nosso cafofo paulistano. Meu quarto azul, com fresquíssimo papel de parede de barquinhos, vai virar o de visitas, e a minha vaga na garagem será finalmente cedida ao carro do vovô. E é isso. Decisões são decisões - e, como tais, sempre trazem aquele quê de insegurança. E fascinação.
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