É aquela velha desculpa esfarrapada: já que aqui não dá para ser, vamos pra Pasárgada. Dadas as atuais condições, parece uma solução plausível. Se nós, que supostamente nos achamos sozinhos na imensidão quântica do Universo e fizemos tudo errado com um planeta – veja só, um dentre tantos outros mil –, estamos arrependidos e amadurecidos, porque não podemos buscar por outros ares e, vá lá, evitar cometer o mesmo erro de novo? Ora, nossos vizinhos intergalácticos que nos entendam! Como não há nada comprovando a existência de outras organizações em sociedade galáxia afora, astrônomos já começaram a estudar as luas de Júpiter, nosso famigerado vizinho Marte e até mesmo uma discretíssima lua que nos aquece nas azuladas noites terráqueas, como possíveis astros habitáveis. E pensar que fazem míseros quarenta anos desde que os russos e os americanos se digladiaram no arcaico sonho de fincar uma bandeira na Lua... agora queremos morar, casar, ter filhos, trabalhar, ver novela, jogar bola, estudar, transar, fazer guerra, acabar com a natureza... tudo por lá!
Os nossos cientistas querem, enfim, transplantar a vida humana para outros planetas, e isso o quanto antes. Deus do céu, como terei saudade da Terra! Mas se ainda estiver vivo na época, confesso a vocês que serei um dos primeiros entusiastas a pagar milhões para me mandar daqui. Vou mesmo. Dormir em uma câmara despressurizada, vendo as novelas da Globo e o Big Brother via satélite, comendo McDonalds em pílulas, com gotículas de Coca-Cola pairando no ar... um verdadeiro astronauta do novo milênio. Vou p´ro espaço sideral, e para lá levarei meus filhos, irmãos e netos, as fotografias dos meus pais e avós, minha guitarra, minhas memórias e meu videogame. E vou passar a velhice por lá mesmo, eu, minha prole e o que restar de mim.
Vou saudar as idas à praia, o pôr-do-sol na beira do Rio Guamá, a barulheira dos carnavais e da vida corrida que seguia até a meia-noite; vou lembrar do calor enjoado que fazia no meu quarto às nove da manhã, das curvas que a fumaça fazia no ar ao se desprenderem de um cigarro, da minha pele bronzeada a contragosto no sol do meio-dia, do sol caloroso do verão que se anunciava todo mês de Julho. Tudo não passará de memória, minha e de toda a gente que comigo quiser ir viver o final de sua vida fria, mas dignamente.
Andam dizendo que, por lá, vai tudo ser igual; pura ilusão. No mundo ou na Lua, na América Latina ou na Estação Internacional, a gente vai fazer as mesmas besteiras de novo; alguém vai arrumar confusão, inventar novos valores econômicos e meios de produção, descobrir um novo combustível, e lá vamos nós explorar o solo, a natureza e as riquezas do novo planeta até a sua exaustão! Sorte a de caras como eu, que irão viver apenas o mar-de-rosas, apenas a fase nupcial da nossa colonização interplanetária. O que mais me dói, porém, é saber que terei uma morte sem dor, despressurizada, mas culposa. Vou morrer assim, triste como nenhum velhinho jamais morreu, apenas por saber que tudo o que eu vivi por aqui meus netos e bisnetos jamais irão viver; Por tudo o que vivi e pelo que lutei não passar de um pontinho azul-escuro e alheio à vida, visto das janelas impermeáveis de uma cápsula qualquer. É, meus amigos, seja no mundo, seja na lua, vamos sempre nos arrepender apenas quando a coisa não tiver mais jeito.
* Créditos à foto: capa do livro "O Mundo é Plano", de Thomas L. Friedman
