
Reuniãozinha de amigos em uma quinta-feira modorrenta. Papo vai, papo vem, pizza, nuggets e Coca-Cola, e finalmente conseguimos sentar e assistir ao filme que havíamos escolhido para aquela noite: a nova empreitada do cineasta Quentin Tarantino (em conjunto com Eli Roth) nos cinemas, um comentadíssimo thriller com toques de realidade, sucesso de crítica e bilheteria. Na locadora, a dúvida residia entre alugar “O Albergue”, ou então o novo filme da série “Verão Passado”. Acabamos ficando com o primeiro, por todo o valor pseudointelectual que um filme com o dedo do criador de “Pulp Fiction” possui entre jovens universitários. Voila.
Nos primeiros minutos, o sentimento era de choque: Quentin havia se rendido a Hollywood?!? Num lugarejo da Eslováquia, três jovens se hospedam em um paradisíaco albergue, indicado por um viajante de trem. Mulheres nuas, spas eróticos, mochileiros drogaditos, um desaparecido, clima de suspense e mistério... o filme desenvolve-se numa sucessão de clichês hollywoodianos. Até que, lá pelos seus 40 minutos, Tarantino deixa de lado a frescura, e aflora suas raízes mais encardidas e baixas. Uma terrorífica indústria xenófoba se revela nos arredores do albergue, e apenas um dos garotos sobrevive ao sadismo brutal de um clube de caçadores de forasteiros, descobrindo que a locação era apenas uma fachada para algo bem maior.
Após mais 1h de pura carnificina e desespero, o filme acaba sem quê nem porquê, com um jovem sem dois dedos voltando para casa de trem após matar um dos chefes do tal clube. E é isso aí, acabou-se a superprodução de Tarantino e Roth. Nota zero para os caras, pela violência desmedida e sem propósito, e pelo toque americanizado que a trama tomou, com sua pobreza estética e apelação visual, fosse nas fogosas mochileiras, fosse nos membros humanos empilhados nos porões da Eslováquia. Mas o filme, confesso, me deixou fascinado, no pior sentido da expressão. E, vá lá, me rendeu uma reflexão nada americanizada sobre o corpo e a mente humanos... e sobre o mundo em que a gente, teimosamente, se arrasta.
O sadismo e a brutalidade já haviam sido abordados em outras "superproduções" do cinema, como “O Silêncio dos Inocentes” e “Jogos Mortais”. Muito embora apenas o primeiro tenha seu brilho, sendo o último tão decadente quanto “O Albergue”, o filme apresentado por Tarantino possui, por trás das óbvias apostas mercadológicas dele e de Roth, um indecifrável fator atrativo para a espécie humana: a barbárie. A loucura e a sordidez atingem um estado tão catastrófico em “O Albergue”, que o espectador não mais consegue sensibilizar-se com as torturas praticadas contra os inocentes. Resta a ele ir em grupos de amigos ao cinema (ou locar o DVD) e ficar rindo ou chorando, tal qual sanguinários, assistir de camarote algo que lhes alimenta o espírito. Sim, porque há algo de muito humano na desumanidade dos caçadores de gente. Há uma espiritualidade intrínseca na arte do cinema, e esta está gritando para ser ouvida em desastres pós-modernos da estirpe de “O Albergue”.
Confesso, em nome de boa parte do público que foi ver este filme, que tantos corpos empilhados, olhos derretidos e seios fartos à mostra possuem seu sentido próprio dentro de uma produção tão lamacenta, e é isso que a torna um “clássico do século XXI”, pronto para desbancar thrillers e liderar o pódio das preferências do público adolescente da atualidade, notoriamente atraído pela sanguinolência. Não sou adolescente nem sádico, portanto não recomendarei este filme para ninguém, nem mesmo para um condenado à cadeira elétrica: ninguém merece ver tanta crueldade, mesmo que goste de vê-la – e sinta nojo disso. Mas também não me peçam para falar mal deliberadamente do filme: para mim, o paradoxo é válido, e se há alguma reflexão que devemos fazer sobre a nossa própria deprimência, sobre a nossa própria decadência, essa reflexão floresce em meio à cagada de “O Albergue”.
Pessoas doentes produzem filmes doentes? Talvez. Um mundo doente venera um filme doente? Com certeza. Tarantino e Roth, vocês podem ter passado longe do mediano com este filme, mas ganharam seu espaço na história do cinema por pontuar, com precisão, o momento onde ele passou a cuspir na nossa cara o mundo que fomentamos em séculos de barbárie. O mundo de carnificina, xenofobia, demência e luxúria, que cresce nos porões e ensaia sua investida contra nossa mentalidade hipócrita. Um controverso parabéns a vocês.
José Augusto Mendes Lobato 29/12/06