sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Sobre Tarantino, Albergues e Decadência Humana


Reuniãozinha de amigos em uma quinta-feira modorrenta. Papo vai, papo vem, pizza, nuggets e Coca-Cola, e finalmente conseguimos sentar e assistir ao filme que havíamos escolhido para aquela noite: a nova empreitada do cineasta Quentin Tarantino (em conjunto com Eli Roth) nos cinemas, um comentadíssimo thriller com toques de realidade, sucesso de crítica e bilheteria. Na locadora, a dúvida residia entre alugar “O Albergue”, ou então o novo filme da série “Verão Passado”. Acabamos ficando com o primeiro, por todo o valor pseudointelectual que um filme com o dedo do criador de “Pulp Fiction” possui entre jovens universitários. Voila.

Nos primeiros minutos, o sentimento era de choque: Quentin havia se rendido a Hollywood?!? Num lugarejo da Eslováquia, três jovens se hospedam em um paradisíaco albergue, indicado por um viajante de trem. Mulheres nuas, spas eróticos, mochileiros drogaditos, um desaparecido, clima de suspense e mistério... o filme desenvolve-se numa sucessão de clichês hollywoodianos. Até que, lá pelos seus 40 minutos, Tarantino deixa de lado a frescura, e aflora suas raízes mais encardidas e baixas. Uma terrorífica indústria xenófoba se revela nos arredores do albergue, e apenas um dos garotos sobrevive ao sadismo brutal de um clube de caçadores de forasteiros, descobrindo que a locação era apenas uma fachada para algo bem maior.

Após mais 1h de pura carnificina e desespero, o filme acaba sem quê nem porquê, com um jovem sem dois dedos voltando para casa de trem após matar um dos chefes do tal clube. E é isso aí, acabou-se a superprodução de Tarantino e Roth. Nota zero para os caras, pela violência desmedida e sem propósito, e pelo toque americanizado que a trama tomou, com sua pobreza estética e apelação visual, fosse nas fogosas mochileiras, fosse nos membros humanos empilhados nos porões da Eslováquia. Mas o filme, confesso, me deixou fascinado, no pior sentido da expressão. E, vá lá, me rendeu uma reflexão nada americanizada sobre o corpo e a mente humanos... e sobre o mundo em que a gente, teimosamente, se arrasta.

O sadismo e a brutalidade já haviam sido abordados em outras "superproduções" do cinema, como “O Silêncio dos Inocentes” e “Jogos Mortais”. Muito embora apenas o primeiro tenha seu brilho, sendo o último tão decadente quanto “O Albergue”, o filme apresentado por Tarantino possui, por trás das óbvias apostas mercadológicas dele e de Roth, um indecifrável fator atrativo para a espécie humana: a barbárie. A loucura e a sordidez atingem um estado tão catastrófico em “O Albergue”, que o espectador não mais consegue sensibilizar-se com as torturas praticadas contra os inocentes. Resta a ele ir em grupos de amigos ao cinema (ou locar o DVD) e ficar rindo ou chorando, tal qual sanguinários, assistir de camarote algo que lhes alimenta o espírito. Sim, porque há algo de muito humano na desumanidade dos caçadores de gente. Há uma espiritualidade intrínseca na arte do cinema, e esta está gritando para ser ouvida em desastres pós-modernos da estirpe de “O Albergue”.

Confesso, em nome de boa parte do público que foi ver este filme, que tantos corpos empilhados, olhos derretidos e seios fartos à mostra possuem seu sentido próprio dentro de uma produção tão lamacenta, e é isso que a torna um “clássico do século XXI”, pronto para desbancar thrillers e liderar o pódio das preferências do público adolescente da atualidade, notoriamente atraído pela sanguinolência. Não sou adolescente nem sádico, portanto não recomendarei este filme para ninguém, nem mesmo para um condenado à cadeira elétrica: ninguém merece ver tanta crueldade, mesmo que goste de vê-la – e sinta nojo disso. Mas também não me peçam para falar mal deliberadamente do filme: para mim, o paradoxo é válido, e se há alguma reflexão que devemos fazer sobre a nossa própria deprimência, sobre a nossa própria decadência, essa reflexão floresce em meio à cagada de “O Albergue”.

Pessoas doentes produzem filmes doentes? Talvez. Um mundo doente venera um filme doente? Com certeza. Tarantino e Roth, vocês podem ter passado longe do mediano com este filme, mas ganharam seu espaço na história do cinema por pontuar, com precisão, o momento onde ele passou a cuspir na nossa cara o mundo que fomentamos em séculos de barbárie. O mundo de carnificina, xenofobia, demência e luxúria, que cresce nos porões e ensaia sua investida contra nossa mentalidade hipócrita. Um controverso parabéns a vocês.

José Augusto Mendes Lobato 29/12/06

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

£ - Redoma de Papel Pt.3

Queremos apenas paz. Salvar-nos do que fazemos de mal a nós mesmos, laçar nosso desatino e queimá-lo, olhando das chamas surgir o carinho. Dar ao corpo um sustento, alimento para a imaginação a dar aos olhos o fascínio.

Alçar vôo com o corpo e deixar a alma para trás?Isso é que desejaria em teu domínio! Quero meu espírito suspenso no ar.

Quero que o tempo não me trace caminhos.

De fato, quero um tempo que seja só meu. Que seja eterno em sua inconstância, impuro em sua plenitude, que seja humano como a minha vida. Quero ponteiros que sejam meus dedos, algarismos que contem minhas idas e vindas, quero memorizar meus instantes nos obstantes segundos teus, quero ver em ti a mulher mais linda:

E vejo, hoje e sempre, essa beleza em ti, meu amor.

De fato, sempre pensei em como essa incerteza me domina e me arranca a razão; por entre os dedos, escapam deste homem feito suas velhas sinas e manias. Quero descansar tranquilo em teus seios, ter a noite e o dia ao alcance do corpo e do espírito, preciso acreditar em floreios, em paz e nos sentidos, tal qual acredito na redenção de um homem à mulher mais bonita.

E já não há mal atacando a mim mesmo,
Nem mesmo derivas e passos sobressalentes
Tudo seguiu seu caminho, e, às pressas
Tornaste-te parte de um homem decadente

Lentamente, me trazendo de volta à vida.

Vou acreditar agora em coisas esdrúxulas e ridículas. Plenitude, paz, felicidade... são tantas coisas a ser sentidas! E tantos amores e imperfeições, as quais cometerei sem arrepender-me: afinal, a vida é um ininterrupto de infortúnios recheados de beleza. Fecho o ciclo de uma redoma de confissões assim, alheio a despedidas... não há mais dor no que sinto, não há mais ardor neste recinto:

Há apenas a certeza de uma nova vida.


José Augusto Mendes Lobato - 27/12/06


* Ciclo fechando, com final feliz. Quer conferir as duas primeiras partes?

http://redomadepapel.blogspot.com/2005/12/o-que-no-se-l-nas-entrelinhas-redoma.html - Pt.1
http://redomadepapel.blogspot.com/2005/12/o-que-as-mos-no-seguram-redoma-de.html - Pt.2


terça-feira, 19 de dezembro de 2006

O Mundo em HTML


Bits, pixels, provedores, e-mails, senhas, templates... Google, Yahoo, Uol, Microsoft, Apple, Adobe... .com, .xxx, .br, .gif, .jpeg, .psd! Quanta coisa a se descobrir nessas pequenas telinhas que - quase - todo lar possui hoje em dia, e quanto a refletir sobre. O mundo, afinal, vive disso. Nós respiramos modernidade, meus queridos.

É de causar arrepios nos imaginarmos vivendo como nossos bisavós: sem rádio, sem televisão, sem luz elétrica; sem Orkut, sem Messenger! Quem quisesse arrumar o que fazer em uma tarde modorrenta, que fosse ler um livro, ou dar uma volta pelas ruas! Não teríamos a comodidade de sentar diante do camputador e, literalmente, viajar em torno do nosso próprio umbigo. A ilusão de liberdade e mobilidade do homem moderno são incríveis: o caos que esse segundo mundinho por nós criado ostenta é a prova de que nele já estamos bem instalados... e íntimos conhecedores de seu modus operandi. Talvez por simplesmente nos adequarmos melhor nele do que na natureza, pelo menos até segunda instância, o centro das atenções anda até se transferindo pra lá!

Afinal, são as novas tendências: a vibe, como diria o playboy. Ora, existem até empresas endereçadas na web; graduações específicas para os estudiosos da computação e do meio informacional. O mercado se prepara, quase todas as grandes empresas e sistemas possuem seu espaço na Internet, assim como os pré-adolescentes e seus fotologs multicoloridos, e os pedófilos e seus websites pornô. Enfim, surgida no ápice da empolgação "nós-somos-Deus" do homem, a bendita Internet acabou por tornar-se o nosso mundinho particular, onde tudo o que existe aqui ganha sua representação nos domínios virtuais. E onde todo grande infeliz e antisocial homem moderno tem sua chance de se auto-afirmar. Que vergonha, raça humana!

A Internet é o futuro. O HMTL é a carne, os ossos e o espírito do homem informatizado. Nós respiramos modernidade, meus queridos. Por isso mesmo, esqueçamos o bucolismo, a vida pastoril-suburbana e a liberdade dos nossos bisavós, e rendamo-nos à efemeridade, inconstância e clausura psicológica do nosso novo e solitário universo virtual. E, como diria Renato Russo, vamos celebrar a ignorância, né? Afinal de contas, tudo é festa quando a tecnologia avança.

A cadeia alimentar é nossa!

domingo, 17 de dezembro de 2006

Yin-Yang


"Há quem acredite na perfeição dos fatos, das pessoas, dos segundos e minutos, quando projetados na imortal essência do sentimento; a mim, resta acreditar não nesta ilusão vendida de que as peças do quebra-cabeça que rege nossas vidas devem se encaixar com perfeição a partir do momento em que mantém o primeiro contato, mas sim na simetria de cada milésimo de segundo, no Yin-Yang de cada fenômeno que me cerca. E um deles é a simetria que encontro com o que vos escrevo, pelo simples fato de ser a projeção do que sinto; pelo simples fato de isso ser uma projeção do que as palavras sentem por mim."

Escrevi isso em um dia qualquer, meio que sem pensar no assunto. Ao parar para ler isso mais uma vez, descobri que pouco - ou nada - falo do que abordo: os opostos, "dois lados da moeda", sua razão de existir e sua convivência. Mais especificamente, eu, o que eu deveria ser e a convivência desses dois caras no mesmo corpo.

Há muito dentro de mim que detesto. Há uma parte que amo, e essa, Deus me perdoe, não merecia metade do que tem. Comete erros a esmo, não aprende com eles e raramente se dá por satisfeita. Esse cara é um romântico à moda antiga, da pior estirpe, que idealiza tudo, sofre por tudo e, paradoxalmente, esquece tudo rapidamente... quebrando, depois, a cara pelo mesmo erro cometido. Imagino eu, esse pedaço de mim é mais conhecido que o seu oposto, seu Yang. Um exemplo de decência, responsabilidade e amor próprio, minha outra metade só transparece em momentos de ódio intenso, calando-se no exato momento em que ouve uma palavra de carinho - voltamos, então, à versão abestada do mesmo homem, que comanda seu (in)consciente 90% do tempo.

Sei que é normal odiar um pouco de si, resmungar sem rédeas sobre o que queria mudar e não consegue. Mas se há uma coisa que não consigo mudar, é a minha essência, essa responsável por tudo, por cada metade de mim. Não sei se deveria estar feliz por isso, mas que essência fraca eu tenho... Quanta fragilidade, sentimentalismo e incapacidade de racionalizar os fatos! Quando menciono que há quem acredite na perfeição das coisas, falo de mim, o homem que não aceita a realidade mesmo quando ela grita, profusa, aos seus olhos. Quando falo de palavras, falo de mim e da minha sensação de incompletude, necessidade de estar sempre apoiado em algo para atingir um estado de coerência ao mundo. É como se a frase que deveria ser no papel, fosse composta por apenas uma palavra, e a cada rabisco novo, descobrisse mais razões para permanecer monossilábico, romanticamente enclausurado na subjetividade de quem não possui nada de objetivo a comunicar.

A simetria de cada segundo, enfim, é essa (até agora) frustrada batalha que travo comigo mesmo, com minhas palavras e devaneios, em busca de uma essência nova para este homem quase-feito, que em breve terá de ser um texto enxuto, articulado e compreensível para os leitores deste pobre mundo. Eu sou minha própria fraqueza: seu meio e fim, sua própria razão e sentido. E não há pedaço de mim que seja mais identificável com tal situação quanto aquele jovem idealista, fraco e inconsequente. Que vence a batalha - e vangloria-se esbaldando-se em poesia e rimas pobres - simplesmente por não comparecer a ela. Simplesmente por tê-la vencida, de antemão, pela essência covarde e sonhadora que permeia a convivência entre os tais dois lados da mesma jovem moeda.

Pessoal demais. Entendo que ninguém consiga entender. Obrigado pela presença no blog, mesmo assim... espero estar em melhor forma no próximo texto.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Camila


É sempre assim, o tempo todo. Ela entra no quarto, bagunça o guarda-roupa durante umas três horas, testa todas as saias e blusas e vestidos que tem e pinta os olhos, para depois desistir de sair e deitar-se na cama. Borra a maquiagem recém-feita no salão, fica pensando na vida enquanto conta quantas infiltrações tem na parede do quarto, quantos passarinhos vão passando pela varanda até o amanhecer, quantas horas passa a esmo. Se masturba também, enfiando os dedos com violência no próprio corpo. Até sentir o orgasmo mecânico, e cair em instável e forçado sono.

Sempre foi assim. Desde pequenininha, quando corria pela rua empinando pipa, quando arranjou seu primeiro namorado, quando entrou na faculdade... quando se casou. Tinha esse ritual de tentar botar os pés na rua todo sábado à noite. A cada semana, mais esperança alimentava dentro de si. Nunca, porém, conseguiu passar da porta de casa. Seu peito apertava e se retorcia, seus olhos reviravam sob as luzes ofuscantes da metrópole. Era a sensação de mal-estar que lhe impedia de sair com os amigos, com o namorado, com a família.

Era vista como uma louca. Caía aos berros quando era obrigada a sair de casa; teve a família desestruturada, perdeu marido, filhos, foi tornando-se a única naquele apartamento gigantesco no centro da Paulista. Trabalhava em casa mesmo, ganhava dinheiro suficiente para tudo que precisava e queria. Mas para que um dinheiro que não podia gastar lá fora? Do que ela precisava, e o que ela queria? As cortinas que a separavam do mundo balançavam graciosamente em volta da silhueta raquítica que olhava, a cada maldita manhã trespassada, o mundo seguir seu rumo.

Sempre foi assim, durante doze longos anos. Um belo dia, porém, a mulher doente resolveu sair de casa, finalmente encontrar o mundo que a esperava há anos. Foi pela janela da sala, sentindo a fumaça urbana lhe penetrar a pele e os gritos da rua serem engolidos pelo silêncio da morte. Chegou lá embaixo esbanjando vida, com o vermelho de seu vestido cuidadosamente escolhido contrastanto com a pele alva e com as olheiras há anos cultivadas. Até cair em instável e forçado sono.

José Augusto Mendes Lobato 03/09/06

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Dia um

Eu sempre esperei que nem louco as férias. Sabe aquele negócio de adorar acordar tarde, comer, tomar banho, ler, ver televisão, comer de novo e voltar a dormir sem preocupação alguma na cabeça? Pois é. Movia os anos letivos, o vestibular, a vida afetiva e a nada mole vida pós-aborrescência em geral à base do meu anseio por dias ociosos. Tirava notas boas pensando em ficar de férias mais cedo. Era um bom filho pensando em viajar de férias mais cedo. Passei no primeiro vestibular que prestei, pensando em começar minhas férias... mais cedo.

Mas todo esse furor, essa necessidade de livrar-me de responsabilidades, não mais me habita. Se antes eu fugia de problemas, atualmente os fisgo com ansiedade; se antes via o recesso como bênção, atualmente ele me provoca arrepios e uma progressiva sensação de pânico. Acordar de manhã, olhar para a tela do computador e se descobrir totalmente, completamente sem compromissos e metas? Nem mesmo uma cobrança na cabeça, uma perturbaçãozinha sequer? Credo!

Dizem que isso são coisas da idade. A maturidade nos atinge, o desejo de transgressão dos jovens torna-se memória doce, tal qual a inocência infantil ou a curiosidade pré-adolescente. Cedemos lugar para o conformismo, para a necessidade de construir nossos próprios pequenos mundos, conquistar uma independência verdadeira. Não há graça alguma em contestar os pais: o melhor é trabalhar em conjunto com eles, buscando o apoio renegado na adolescência e mantendo a devida distância deles enquanto segue com os próprios projetos.

As férias são o primeiro impacto. Começo a remoer, logo no primeiro dia da tal, pensamentos ansiosos: quero que o próximo semestre chegue. Quero estudar. Quero produzir. Quero trabalhar. Vão ser dois meses vividos a passo de cágado, dormindo e acordando pelo simples fato de... não ter o que fazer? Deus me livre, vou para a rua e procurar um passatempo!

(...)

Err... eu fui e não adiantou de nada. Não tem NADA que eu possa fazer, de produtivo. Eu queria mesmo era um emprego, mas quem há de me ceder essa dádiva? Eu, que antes queria mesmo era ficar sendo sustentado, alimentado e vestido pelos genitores, estava querendo emprego. Em pleno recesso! Igualzinho a eles, que continuam chegando em casa às oito da noite, sentindo-se exaustos, cheirando a cigarro e comida fast-food.

Por isso que eu sempre digo para nunca renegarmos nossos pais: diferentes em gênio ou pensamentos afins, somos, no final das contas, cópias deles. Queremos ser essa máquina de produção de filhos, trabalhadores de bem, conformados com o vazio da vida adulta moderna, conformados com o fato de viver para alimentar suas crias e pagar suas pobres contas bancárias. O furor jovem está saindo de mim, lentamente, enquanto a vida segue, a faculdade vai ficando mais séria e eu vou aprendendo a viver na minha própria trilha.

Eu sempre, sempre, esperei que nem louco as férias. Agora, quero juntar-me a eles, os adultos, e ter uma vida corrida de merda - daquelas que a gente nunca vê nos anúncios de refrigerante. Agora, se me restasse um pedido antes que eu deixasse de ser criança, eu queria apenas tirar umas férias.

Umas férias de mim mesmo, só para relembrar o que é sossego.

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Toda revolta é um pouco Kitsch

Sempre fui avesso ao caderno de polícia dos jornais. Para quê ficar vendo estampada lá a desgraça que atravessava a cidade, que viva nas esquinas e nos cantos sujos da nossa existência? Já basta o que nossos olhos vivenciam, o engolido em seco na vida moderna. Deixa de besteira, garoto. Violência aliada a exposição midiática é Kitsch.

Um belo – belo não, horrível – dia, porém, minha empregada chegou em casa chorando. Berrava desesperada pela casa, empunhando o caderno policial (que devia ter conseguido com os porteiros do prédio) e um telefone celular. Nervoso, coloquei-a na mesa do café e perguntei qual era o problema. Ela engoliu uns goles de café, junto com ele levando a histeria, e caiu em uma lenta e chorosa dissertação.

É, o queixo deste homem feito, acostumado com tempos de violência e com crimes escabrosos, caiu. O sobrinho da dona Zélia, menininho de 11 anos, estudante e filho único de uma viúva, morreu eletrocutado. Tudo obra de uma cerca eletrificada ilegal, posta sobre uma região lamacenta por um pescador aborrecido com pequenos furtos de açaí em sua propriedade. O menino jogava futebol com os amigos e saiu correndo atrás da bola, que havia penetrado o matagal após uma jogada mal-sucedida. Ao pisar na água, eletrificada pela cerca, sofreu ataque cardíaco fulminante e morreu na hora, não resistindo às investidas de populares da área em revivê-lo.

O episódio tornou-se motivo de revolta nos moradores do bairro. Também pudera. A que ponto chegaram a barbárie e a falta de senso dos cidadãos de um espaço comum, né? Dona Zélia se debulhando em lágrimas na minha frente, ódio pulsando no meu peito, uma xícara vazia posta sobre a mesa. Passamos horas assim, conversando sobre o pescador insano. Soube que ele era viúvo também, cara amargurado pela vida, perdera três filhos, vivia só no meio de um matagal indistinto. Mas e daí?

É como o grande João Ubaldo Ribeiro disse uma vez: vivemos em uma sociedade de absolvidos e ausentes em potencial. Ninguém é culpado em primeira instância: a suposta inocência há de ser o ponto de partida. O homem ainda estava livre. Más línguas diziam que ele era louco, doido varrido mesmo. Ia, portanto ter um destino bem melhor do que o menino: ia para um manicômio. O menino, inexoravelmente, para debaixo da terra. É de revoltar a injustiça da Justiça nessas horas de fervor.

A irmã da Zélia estava inconsolável. O pai, transtornado. Na foto estampada na capa do caderno policial, estava ela, a mãe, agarrada nos ombros do marido, irreconhecível na sua lamúria materna. Prometeram matar o pescador. De fato, tocaram fogo na sua casa e na sua propriedade, num acesso de passionalidade. O corpo esturricado do menino fora velado algumas horas depois do almoço, enquanto eu e Zélia almoçávamos na santa paz, do outro lado da cidade, encarcerados no conforto cinzento de um arranha-céus qualquer.

Também sempre fui avesso a falsos sentimentalismos. Por isso não direi que fiquei “inconsolável” pela morte do menino que não conhecia. Apenas senti-me temporariamente revoltado com a injustiça dos fatos, com a impotência das mãos que aqui escrevem de mudar um fim tão trágico dado a uma criança de onze anos. Dei tchau à pobre Zelinha, e fui pro meu quarto dormir. Como disse, foi temporário. Lexotan debaixo da língua. Filme pornô na televisão. Sono vespertino. Esqueça o menino, a cerca e o pescador, garoto. A vida é injusta assim mesmo.

domingo, 29 de outubro de 2006

O dia inspira...

Sempre evitei o assunto política. Talvez por sabê-lo polêmico, motor de grandes brigas e discussões que, vá lá, raramente produzem efeito produtivo, talvez por simplesmente não possuir cacife para falar de tal. Gosto muito de política, mas não sei de dados numéricos, reais, daqueles que os envolvidos com grandes partidos e movimentos têm conhecimento. Não sei quantos milhões um investiu em educação, o quão sustentável é a prática econômica do outro. Ou seja, minha ideologia política, como a de muitos brasileiros, é feita na base da observação, com a limitada abrangência que minha visão permite. Convido-os a analisar os últimos quatro anos de Brasil sob a minha ótica facilmente "estereotipável" e, como já explicado, simplória, porém, verossímil.

Nas últimas eleições, presenciou-se uma batalha travada desde que a democracia retornou às mãos do povo: Lula versus a "direita". O operário sem um dedo, representante da massa pobre e explorada, versus a elite político-intelectual do país. Por toda a década de 90, Lula veio perdendo esta batalha. A direita veio, por sua vez, realizando uma gestão neoliberal, de mercado, detestada por uns e amada por outros.

Em 2002, porém, a chama da esperança - desenvolvida, especialmente, sobre as cinzas do mal-sucedido segundo mandato de FHC - manifestou-se nas urnas, elegendo o militante do PT após doze anos de amargas derrotas. Ao vê-lo discursar no Planalto Central, em sua posse, confesso que lágrimas quase escaparam pelas arestas de meus olhos. Será que aquele homem, o qual considerava um louco, desgovernado político, poderia trazer novos ares à política brasileira?

Será que ele viria para sanar problemas não meus, mas problemas da grande maioria do povo brasileiro - que, acho eu, FHC já vinha solucionando de forma gradativa -, povo esse que sofria com impostos, desemprego, desigualdades, insegurança, e uma intensa miséria localizada em regiões como o Nordeste (que, ao contrário do que a esquerda diz, é um produto histórico, não da "direita do Sul e Sudeste")? Enfim, até mesmo para os que, como eu, torceram e votaram no candidato tucano José Serra, e o viram perder para Lula em 2002 no segundo turno, a vitória do ditocujo puxou, de nosso íntimo, um naco de esperança.

Mas a esperança e a história da esquerda brasileira foram manchadas. Escândalos de corrupção, quedas de investimento estrangeiro, estagnação das economias locais, explosão de importações, falhas incomensuráveis na política externa, sucateamento na educação, entreguismo político com relação ao solo nacional, nepotismo. Enfim, quase tudo o que Lula julgava abominável, foi, em seu mandato, intensificado ou mantido. Salvo alguns bons momentos de seu governo - como a medida paliativa, porém, necessária, do Bolsa Família -, a gestão do "homem de palavra" foi marcada pela repetição de práticas detestáveis na política nacional.

Após a descoberta da máquina montada pelo PT de Lula para comprar políticos no Planalto Central, seguida de incontáveis denúncias e demissões de ministros e vizinhos de gabinete do presidente, esperava-se que o povo brasileiro, no mínimo, atentasse para estas questões antes de votar, mais uma vez, movido pela emoção. Mas não. Lula está virtualmente reeleito até segunda instância. Meus amigos todos estão calados. Meu país está calado.

Meu compromisso cívico, pessoal, não é com o PSDB de Alckmin. Não é com o PT de Lula. Nem com as vendidas noções de esquerda e direita que, por ignorância, ainda permeiam nossas decisões políticas. Meu compromisso é com um voto consciente, pensando no melhor para o meu país, que já foi ridicularizado e rebaixado aos olhos do mundo e precisa ganhar novo gás na política. Como disse acima, sempre evitei o assunto política, por não me arriscar em um terreno que não domino. Mas agora, amigos, venho lhes falar da minha política, a que rege meus dias, meu juízo e a minha consciência, e essa eu domino como ninguém. E essa nunca, nunca iria reeleger Lula, ou a estrelinha vermelha que ele coloca no canto direito de seu logo. Eu quero um exemplo de decência, e vou arriscar em mudanças, de quatro em quatro anos, até achá-lo. Quem quer fazer o mesmo comigo?

São 12:47. Daqui a cerca de dez horas, saberei se valeu a pena escrever isto, Discutir com Deus e o mundo, com o diabo a quatro, resmungar para vocês (que dificilmente estarão lendo isso hoje, dia 29 de Outubro de 2006) enquanto as votações correm lá fora, os passos apertam e gente como eu continua aqui, remoendo-se em inconformismo.

E já chega, vou almoçar. Tenho fome.

Abaixo, um texto que deixei no meu Orkut que, acredito, eu, é oportuno ao momento:

"Amigos, é hoje. Por favor, respeitem a si mesmos. Respeitem seu país, a moral e a ética: acima de tudo, respeitem o cargo a ser decidido. Ele é feito para gente preparada, não só no sentido acadêmico, mas no emocional, psicológico, partidário e filosófico. O ato de exercer gestão política vai muito além de ideologias e bandeiras: é, antes de tudo, um compromisso com o coletivo e com o paradigma moral.Votem em quem quiserem, enfim. Contanto que estejam prontos para arcar com as devidas conseqüências."

José Augusto Mendes Lobato

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Car Blues

Você o quebra. Ou tenta. Retalha com um grito, encarcera ele em um sorriso. Mesmo assim, não o suporta. Foge dele pela inconstância de sua imaterial e fugaz instância. Pede por ele, quando os tímpanos já não suportam o caos e a poluição generalizada do ambiente, quando as cordas vocais desistem de fazer ouvida a voz de um homem.

Mas longe dele você cresceu. E sem ele irá morrer.

É. Quem aí lembra da última vez em que ficou em total, completo, absoluto, silêncio? É difícil. Seja uma música baixa posta enquanto está no banho, seja o barulho da rua, seja um passarinho cantando na janela, um tiroteio no bairro vizinho, uma televisão. Seja o caralho a quatro correndo pelo corredor da sua casa. Não nascemos para parar no tempo e no espaço, dizem os velhos. O mundo corre, e como corre. Eles não sabem de nada. Nós é que na crescente correria vivemos. E da crescente desordem somos concebidos. Portanto, dela e de seu barulho somos parte.

Cerrar os lábios e ouvir o zumbido perturbador de um segundo em silêncio é o medo de todo homem pós-moderno. É incomum, desarma. Não somos preparados para encarar o vácuo sonoro, nem que seja por uma boa causa. Antes o grito, o esporro, do que um olhar penetrante. Antes os punhos cerrados em histeria do que um minuto perdido em linhas escritas. Como completos animais, deixamos de lado a beleza do subjetivo em prol da agilidade e primariedade de uma expressão genérica como o ato de produzir barulho.

Já não disse a psicologia que somos animais forçados, por regras comuns de convívio, a engolir instintos? Minha teoria é derivada dessa: o silêncio é uma poética regra de educação, consigo e com o mundo, e vai contra nosso mais grosseiro íntimo. O silêncio é desinteressante para nós, homens primários e regressos: é anticomunicativo e pede demais da mente atrofiada de um homem enjaulado na selva de pedra.

Não há espaço para refletir, abstrair, quando estamos tragados na correria cotidiana. No caos. E não há razões tácteis para abandonar o caos. Afinal, tudo parece seguir em, perdão o paradoxo, estável desordenação. Portanto, nada de sentimentalismo. Nada de "calar e ouvir". Sempre falar, e de preferência mais alto, caso queira ser ouvido pelo próximo. Pense sempre em si e nos seus interesses. Ignore o que caras como eu dizem, e nunca - eu disse nunca! - pense na sua vida como uma sucessão de barulhos, trancos e barrancos. De lacunosos momentos que, quando postos lado a lado, confirmam o que Deus e o mundo já sabem:

A vida moderna não faz sentido. O homem moderno não faz sentido.

Afinal, ninguém aqui está querendo ver mais um jovem de vinte e poucos anos se jogando da janela do seu quarto. Não leve nada disso muito a sério, e continue, por favor, evitando o silêncio. Longe dele você cresceu. E sem ele você irá viver mais, muito mais. Acredite.

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

Ésper

"Não existe uma única forma de amar. Nós amamos a matéria, nós amamos o não-palpável, nós amamos desde as mais terrenas até as mais inexplicáveis coisas. Amar é um turbilhão de sensações ao qual poucos conseguem se sujeitar sem perder o fio da meada. É, sem dúvidas, um verbo que deveria ser menos usado na linguagem"

Existe um peso em minhas costas. Uma dor penetrante, aguda, que enlaça cada uma destas palavras, cada segundo maldito que dedico à ti. Existe, junta a ele, a vontade de fazer de tuas palavras minhas, e jogar tudo para o espaço.

Eu te esperei, tal qual uma criança. Brinquei por entre teus lençóis, procurando teu corpo por baixo das vestes encardidas. Foram catorze anos de desespero e tensão. Não vi a luz do sol penetrar o quarto uma única vez, nem senti o doce em meus lábios novamente. As teclas do piano faziam ressoar uma torturante melodia pelas paredes. Por catorze anos. Te esperei.

Nosso amor deveria ultrapassar o entendimento humano. As dores da matéria. O sofrimento da fome, da claustrofobia, o desespero. Perdeste, meu amor, o fio da meada. No meio do caminho, optaste por ir às ruas e gritar, e me deixar à tua espera. Aprendi a te amar por através da carne, da matéria. A este turbilhão de sensações estive presa. Te esperando. Por longos catorze anos.

Até que, de tanto sofrer pela tua ausência, meu corpo começou a perder força. Me senti presa à cama. Acorrentada aos lençóis. Às memórias vívidas agarradas às paredes e aos móveis. Uma febre começou a ferir-me a alma, e a tirar o pouco de vida que deixastes de dentro de mim. Cresceu o peso em minha alma. A culpa de ter rendido meu coração a um homem. O ódio de estar me entregando à morte em seu nome.

As últimas palavras de uma mulher devem ser sábias, belas. Mesmo com a insanidade batendo à porta, mesmo com o ódio consumindo seus pensamentos, mesmo com as mãos trêmulas, e com a tinta endurecida e o papel apodrecido engolindo-as inexpressivamente. O Ésper da vida remove meu corpo e minha alma da prisão de vidro na qual me encarceraste.

A liberdade póstuma deve ser, para mim e para ti, meu homem, uma lição.

O meu adeus deve ser, para mim e para ti, meu pai, um até logo.

Caroline LoRaine

Para quem quiser compreender:

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Papo de avô

Namorar é muito bom. Todo homem deveria namorar, para saber o quanto é bom. E namorar direito, com beijo na boca, troca de presentes, jantares e bebedeiras a dois, sexo e muita, mas muita, confiança e respeito. Uma pena que tenha gente por aí jogando tudo isso no lixo.
Tem homem que até namora, sabe? Chega junto de uma mulher, "pega", leva pra cama e, dois dias depois, assume compromisso. A coisa que parecia não ter futuro vai durando, durando... e eis que aparece aquela amiga de anos atrás, liga pra ele quando a tal namorada está viajando. Convida pra dar uma volta, tomar uma. O cara até pensa duas vezes, pensa na namorada, tadinha, que está sem nem imaginar o que acontece pela cidade no momento. Ah, mas quem iria saber? Ele sai. E leva a "outra" pra cama. Transa. Se apaixona. Começa a vida a três.
Há casos nos quais a "outra" começa a se aborrecer. Pergunta para ele o que o prende à namorada. E ele não sabe o quê. Afinal, com a amante é melhor do que com a companheira de três anos. Não sabe por que diabos namora, mas, por inércia e preguiça de se decidir, namora com as duas mesmo. Casa e tem filhos. E continua traindo, o filho da mãe.
Também tem homem que consegue largar a namorada depois de anos de mentira. Aos olhos do mundo, é um canalha bem-sucedido. Fisgou duas de uma só vez, o rapaz. Até existe a chance de ele se arrepender, largar a "outra" (a qual, ele descobre, só serve em doses homeopáticas) e pedir desculpas para a namorada (a qual, ele descobre, só serve ao seu lado), mas... às vezes ela tem amor próprio. Aí, olha só que ironia, ele ainda acaba sozinho. É o infeliz destino de todo homem arrependido.
Namorar é muito bom. Há quem diga que namoro é uma prisão à qual a gente deve se sujeitar depois de muito experimentar. Talvez a poligamia seja um estágio de imaturidade no qual muitos homens e mulheres estejam empacados, talvez seja a tendência natural do homem, que é abafada em nome do convívio social. Não importa. O resultado de uma vida a três (ou a cinco, ou a dez...) é uma inexperiência na vida afetiva que só vai ser notada 50 anos depois, quando estiver sozinho em um gigante apartamento vazio, bebendo vinho e vendo tevê depois de um cansativo dia de trabalho. A pergunta é: vale a pena magoar-se, machucar os outros, estragar amizades, famílias, vidas (porque não?) assumindo um compromisso no qual não acreditamos nem desejamos assumir? Meninos, meninos... vamos ser homens.
Ah! Existe, em esmagadora minoria, o homem fiel. É, ele existe! Só que ele tende a ser o chifrado de triângulo, justamente por ser o contrapeso feminino do casal, o "bonzinho" sacaneado pela mulher a qual ama, e na qual confia. A mulher, pasmem assume esse papel também. E a ele, resta ser ainda mais ridicularizado em seu meio, pela sua natureza não-poligâmica e respeitosa. O mundo é muito injusto mesmo. Meninas, meninas... até vocês!
Namorar é muito bom. Todo homem deveria namorar, para saber o quanto é bom. E namorar direito, com fidelidade, respeito e, se tudo der certo no caminho, amor. Ser homem é muito bom. Ser mulher também deve. Todos os casais deveriam se respeitar mutuamente, para saber o quanto é bom ter orgulho de ser o que é, de ser o que são, de ser o que serão um dia. Deve ser muito bom deitar a cabeça no travesseiro e sentir-se completo ao lado de alguém que ama. Ou então, ao menos, sentir-se completo consigo mesmo e ter a consciência limpa de quem nunca desvalorizou os sentimentos, seus ou dos outros, afetivos ou carnais. Meninos e meninas... vamos tomar vergonha na cara?

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

O Diário de um Yuppie

Eu preciso acordar. Antes que o mundo comece sua correria cotidiana e me deixe para trás, vou estar de pé! Preciso me olhar no espelho, cobrir as olheiras com um bom óculos escuro, lavar o rosto e escovar bem meus dentes. Tomar um bom banho quente e fumar o primeiro cigarro na mesa do café, família em volta, comendo ovos com bacon e cereais. Um bom hálito faz o dia do homem social.

Preciso tomar sol. Mesmo que minha pele fique ardida, é fundamental aparentar jovialidade. Antes das 9, devo estar devidamente engomado, pegando o carro na garagem. E que seja o que Deus quiser. Que o trânsito conspire ao meu favor, que eu não bata o carro novinho em folha comprado com o décimo terceiro. Preciso ainda deixar os filhos na escola, mesmo sabendo que eles só esperam que eu vire a esquina para sair da escola e acender o primeiro cigarro do dia. São coisas da idade. Preciso entendê-los e ignorá-los.

Preciso me cuidar. Tomar conta da minha pele e do meu corpo, tomar meus remédios na hora certa. Prozac com café preto às sete, sim. Nem pensar em ficar doente. Acordar cedo no outro dia para não atrasá-lo. Preciso almoçar rápido, e de preferência que seja na rua. Jantar num fast-food qualquer, para fechar o dia com a chave de ouro de sempre. Não dá para tomar 4 banhos diários, então que seja um só, e bem tomado. Que eu continue perfumado ao chegar em casa e me deparar com a linda mulher sob meus lençóis. Que ela entenda que eu apenas tive uma reunião emergencial em plena madrugada, e que não roube minha metade da cama.

Preciso ser um bom pai e marido. Ir à missa aos domingos, sorrir para o jornal da manhã e ter sempre filhos sadios. Mesmo que eles estejam assim de quando em vez, e se arrastem dopados pelos cantos da cidade enquanto durmo. E que eu nunca os veja no IML na manhã seguinte. Nem minha mulher grávida de novo. Que Deus me permita – e me perdoe por isto – ter, um belo dia, a vidinha de luxo que sempre sonhei. Que essa família não me custe os olhos da cara, senão fujo com a secretária.

É, eu não dependo de ninguém. Nem a coitada da minha família, nem os coitados meus vizinhos, amigos, amantes, colegas de trabalho, amigos e inimigos. Todos são independentes em tese. Precisam acordar também, olhar-se no espelho e nunca, nunca, sentir-se vazios, inúteis. Eles precisam de si mesmos, para se alimentar a si mesmos, e dar gás à máquina do qual são engrenagens. E que Deus perdoe-os por serem tão focados nas coisas que devem fazer. E que Deus os perdoe por serem tão otários.

E que ele nunca me perdoe. Eu preciso fingir não admitir, oras. Mesmo que sob os efeitos de um convívio social falso, mesmo que vivendo um modelo de vida falido, preciso ser um poço de naturalidade kitsch. Eu preciso dormir tendo a certeza de que o que existe atrás da cortina que me separa da realidade nunca será visto por meus olhos. Eu preciso, acima de tudo, acordar no dia seguinte e nem me lembrar do que um dia já vivi. Só para não chegar à infeliz conclusão de que ainda não sei o que é viver de fato.

José Augusto Mendes Lobato

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

(...)

Acharam uma criança no lixo. Bairro pobre de uma capital amazônica. Muita gente gritou alto, revoltosos fecharam avenidas, a notícia saiu em rede nacional. O bebê resistiu, sob os cuidados de médicos da melhor estirpe. Não passou uma semana, já estava nas mãos dos avós. A "mãe" sumira após o incidente, provavelmente com medo de também acabar no lixo.
Esse tipo de situação causa uma certa revolta, e é desnecessário dissertar sobre a monstruosidade de alguém que joga um fruto de seu ventre num latão de lixo, ou sobre a insustentável absurdez da situação. O ponto chave é questionar o tumor social que existe, cresce e se reflete em casos como esse.
As pessoas fazem sexo. Ou amor. Enfim, sem a devida cautela, o resultado das duas é o mesmo: gravidez. E quando uma mulher engravida, ela e seu parceiro estão assumindo um compromisso de vida, consigo e com o mundo que os cerca: colocar nele um projeto de homem ou mulher que deve levar adiante o que chamamos de sociedade. Esse laço de espírito é quebrado por mães que, num acesso de desespero, abortam, por pais revoltados que não assumem o filho, por famílias que crucificam seus filhos por terem "arrumado filho cedo demais", entre outros. Julgamentos de valor à parte, não há como não se revoltar ainda mais com alguém que coloca alguém no mundo para jogar no lixo.
Tanto literal quanto metaforicamente, elas, no lixo, não crescerão bem. Ou morrerão. Se vivas, serão crianças de rua, adolescentes marginalizados, adultos de péssima condição e caráter afetado. E, ciclicamente, péssimos pais. Pequenas células cancerosas, no meio de uma metrópole amazônica ou no centro de Nova York. Sempre serão aberrações sociais. E o efeito bola de neve leva a quê? O fardo de ser pai ou mãe é banalizado; mais e mais células cancerosas se reproduzirão; o sexo é banalizado, e mesmo assim, feito sem cuidados, já que há muitas genitálias a se proteger...
Ah! Chega!
Só de pensar nisso, você já se afoga em pensamentos. Essas pequenas obras de arte que caem nas mãos de um mundo doente serão, em um íntimo distante, gênios e pessoas de bem em potencial. Vestidas, porém, com a ignorância, a violência e os farrapos de um meio social decadente, nunca deixarão de ser uma eterna possibilidade. E nós, a minoria que teve a sorte de nascer em berço de ouro, qual nosso papel? Certamente não se resume a fechar avenidas em protesto, prender gente e concentrar jornalistas por um único dia em torno de um incidente isolado. Nossa função é fazer do nosso mundo um berço melhor para essas crianças, fazer de suas famílias ambientes saudáveis, por adoção ou assumindo-as com carinho e afinco, nosso papel é o de preparar o terreno para que eles colham seus frutos com os lábios sedentos. Valorizar essas obras de arte que a natureza nos proporciona é o que nos tornará pessoas grandes, daquelas que você vê nas novelas e comédias românticas e sonha em ser um dia.

Obras de arte existem para serem comtempladas, não jogadas no lixo.
Pessoas são obras de arte.
Você é uma obra de arte.

José Augusto Mendes Lobato 30/08/06 - 01/09/06

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Post-Scriptum

Um menino esquálido empina pipa no meio dos quarenta graus de uma metrópole, em pela hora do rush. É atropelado enquanto tenta salvar seu brinquedo que caiu no meio da rua.

Uma criança, empunhando fuzil, corre por entre arbustos da savana enquanto atira cegamente em direção a outra criança. Leva um tiro na testa e cai, indistinta.

Uma menina entra na escola silenciosa, entulhada em seus livros, a pensar no vestibular que logo chega. Acaba, na pressa da saída, tropeçando e rolando escada abaixo. Morte cerebral.

Um jovem, cerca de 25 anos, se injeta no banheiro da faculdade. Dessa vez, ele abusa na quantidade e erra a veia. Overdose.

Os quatro morreram, tal qual pólos de um mundo doente, no nascer do dia 6 de março. Encontraram-se após a morte. Sem uma palavra e de súbito, os rostos se cruzaram e trocaram expressões de ansiedade enquanto eram tragados em um vasto túnel de luz. Até que, finalmente, pararam. Estavam diante de uma grande sala. Foram sendo guiados assim até o centro do recinto, onde raios de sol penetravam por entre cortinas alvas e se espalhavam pelo chão translúcido. Abaixo deles, apenas imensidão; acima deles, o céu azul e límpido. Uma sensação de paz os invadiu ao ver milhares, milhões talvez, de pessoas sentadas em um gigantesco círculo os cercando. Havia vagas para todos por entre os vultos. Sentaram-se nervosos, obedecendo ao comando inconsciente que os olhares impuseram.

Mal o silêncio brotou dos passos que cessaram ao sentar, logo foi quebrado pela voz que penetrou pelas janelas, pedindo para que os quatro sentissem-se à vontade. Era a hora de, antes do descanso final, ouvir e falar. Deixar, ali, cuspido, qualquer grito guardado, para enfim deleitar-se no silêncio final. Para suas surpresas, o "julgamento final", de que tanto se falava em vida, não era bem um julgamento, e sim um desabafo conjunto. Por trás do forte reflexo da luz, ouviu-se a voz da menina estudante ressoando no salão:

- Eu já tive sonhos. Morri no meio do caminho, em inconformismo. Antes da hora, no final de uma reta que julguei, até o último momento, a razão de meu viver por tantos anos... agora estou aqui, diante de vocês, provavelmente homens e mulheres que passaram pelo que passei até o dia de minha morte, e tiveram o (des?) prazer de conhecer o mundo por trás dos olhos de um adulto. Morri assim, pisando em falso. Tropeçando em um degrau, dentre tantos outros que viriam. Obra do desespero e da pressa cotidianas. Obra do meu desespero, enfim.

Ao final, as cortinhas se agitaram e a brisa penetrou no salão, trazendo consigo uma forte sensação de conforto. Os braços do silêncio a abraçaram. Não tardou, o menino esquálido rompeu a falar, em gritos.

- Eu não devia tar aqui! Não sei quem são vocês, só sei que minha mãe tá me esperando. Não acredito nesse papo de vida depois de morrer, não! Se aquele ônibus me estraçalhou os miolos, não tou aqui, não tou pensando nem falando nem olhando pra vocês... quem diria, hein! Logo eu, que dia desses tava rindo da cara daquele povo que vai p´ra Igreja e fica abanando as mãos pro céu, agora tou aqui olhando para vocês, que mais parecem um bando de anjos do que gente. Minha mãe tá me esperando na esquina. Minha mãe. Consegui todo o dinheiro que ela me pediu, e a gente vai pra casa e vai ter o que comer. A minha pipa eu deixo no meio da rua, não tem problema. Sò quero voltar pra casa, e amanhã eu roubo de novo, não tem probl...

A voz do garotinho foi se esvaindo, enquanto seu corpo ascendia no meio do círculo e desaparecia em meio à forte luz, que agora estava tornando-se mais fraca. Os rostos começavam a se distinguir, e logo o jovem universitário se prostrou diante da infinidade de vultos brancos, a falar em voz alta e grave.

- Não conheço a morte, embora tenha desejado encontrá-la por anos a esmo. Não conheço o medo, embora o sinta agora que meu corpo jaz em um banheiro a apodrecer. Não conheço vocês, embora saiba que alguns aqui viveram mais que eu, mais intensamente, de forma mais saudável e menos covarde, embora sinta-me próximo de vocês, que hoje sabem o que sinto, que irão me acompanhar. Acima de tudo, não conheço a mim mesmo, esse menino mimado, fraco, que não tem mais a chance de olhar para trás antes de desperdiçar a vida que, dando as costas para os covardes, seguirá ilesa sem minha ínfima presença.

Rapidamente, fora arrancado da sala pelo mesmo brilho ofuscante, deixando para trás apenas a massa de vultos... e o último dos mortos naquele amanhecer, a criança negra. Ela olhou ao seu redor, mal tendo noção do que falar. Procurava sua arma, provavelmente; ao sentir que estavam esperando que falasse, logo deixou escapar dos lábios jovens, a doce voz de seis anos de idade que mal se ouvia, mesmo em tamanha quietude.

- Não sei falar... muita coisa. Não conheço... língua... armas... morta?... antes de...aprendi a matar...

E logo foi tragada, com uma intensidade e velocidade muito maior do que os demais. Ao fundo, podia se ouvir as palavras de conforto da voz que penetrava no recinto com sutileza e força, abençoando o eterno descanso da criança.

Os quatro deram adeus à grande sala da mesma forma que vieram. Sem palavras, em absoluto silêncio. Apenas com o barulho das cortinas cruzando umas nas outras, cobrindo o sol alaranjado da sala, e com a parca respiração dos vultos preenchendo o ar frígido. Foram tragados assim, para se tornar parte do silêncio que se rendia ao adeus que o homem dava ao seu mundo doentio. Restava-lhes, finalmente, o conforto.

No centro da sala, restaram um fuzil, uma seringa, uma pipa e um livro. E um punhado de pegadas, feitas em absoluto silêncio – não fosse o inescapável barulho das cortinas a se fechar para a vida.

José Augusto Mendes Lobato 21/08/06

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Elègia Urbana


Há quem diga que a vida corre em ciclos. Eu não quero ciclos. Eu quero aprender e desaprender à deriva, andar vendado num campo minado, apalpar o mundo ao meu redor sem cerimônias. Quero ser meu mártir. Culpar-me e glorificar-me por cada mudança que traga na minha vidinha ínfima, por cada pedaço de uma página do livro dos nossos dias que escrever – Eu posso, lentamente, revolucionar. Sim, revolucionar, sem armas ou discursos inflados, apenas com os punhos abertos e os lábios entrelaçados em pensamento. Palavras são armas de ação lenta, mas eternas são diante do tempo.
Quero gritar ao mundo que sou criança. Que entorpecido fui, pela doce ilusão de uma vida sem frieza. Que hoje vivo perdido entre arranha-céus, pensando em quantas horas terei de sobra para me olhar no espelho amanhã. Tenho medo de crescer e ponto de não mais me reconhecer. De incomodar-me e, “adulto”, sofrer. De não mais ter tempo de olhar para mim.
Quero viver com intensidade. Para saber que, caso um dia deixe de ver com meus próprios olhos, aprenda a ver vocês com os olhos da mente. Com as memórias. Não quero passar desapercebido na rua. Quero ser grande, deixar minha marca nesta terra, minhas palavras nos papéis e uns e zeros. Quero deixar meu sangue circular nestes pulsos que, de um ventre amado, tornam-se o gás a circular nas curvas e esquinas das metrópoles.
Quero, enfim, deixar um legado. Sem repetir palavras, sem seguir moldes, sem engolir conceitos; a revolução é um processo sem início ou fim. É um meio, meio de explodir em ódio contido, até, sorridente, deitar com a certeza de que lutou por todos e por si. Que estes lábios sussurrem, em cada ouvido, um pouco do pensamento de uma criança, outrora homem feito, que em mim habita. Que esse mártir do silêncio aqui imposto lhes ensine a, mais do que exclamar, mais do que gritar, estas palavras de fúria urbana sentir.
José Augusto Mendes Lobato 17/08/06

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

Em fragmentos

"You said you might never know that i want you to know
What´s really inside of your head"


Nostalgia é um sentimento engraçado.

Mesmo que tudo conspire ao seu favor e que tudo esteja bem, você pode às vezes sentir saudade de coisas não facilmente saudosas. Dias de dor e sofrimento, muitas vezes. Seja o dia em que seus pais se separaram, seja o dia em que você se viu sozinho em casa numa noite de sábado, a contar quantos megas de textos no Word já tinha. Setembros, Maios, Janeiros. Eles lhe retornam à mente - e nada melhor para sentir nostalgia do que ouvindo uma boa música.
É, é aquela que você estava ouvindo na noite em que seu pai atravessou a porta da frente para nunca mais voltar para casa. O que fazer? O cérebro associa, e mesmo que agora estejam todos bem, uma inescapável tristeza penetra seu corpo, um arrepio lhe percorre a espinha.
Lembra? Ele dormia no quarto ao lado... acordava e podia dividir a mesa com ele no café da manhã, abraçá-lo, ver aquele rosto tão diferente e, ao mesmo tempo, tão parecido comigo. Confessar a ele meus medos, meus anseios que só a ele contaria. Contar como andava o namoro, a escola. Chegava em casa e lá estava ele, vendo o jornal na tevê com uma nova revista em quadrinhos - aquela que só para mim ele comprava - nas mãos, abraçando minha mãe e minhas irmãs. Aquela figura paterna atravessou a porta de casa no final de 2001, ao som de "Hey Now!" do Oasis, que estava tocando histérica em meus ouvidos. Não queria ouvir o barulho das malas arrastando no chão, do passo nervoso em direção à porta, do "tchau" na porta do (maldito) elevador.
Eram tempos essencialmente ruins, sim. Mas saudosos, para mim. Ele agora vive sua vida, longe de mim e tão perto ao mesmo tempo. Acompanha a minha vida em fragmentos, enquanto eu, de mês em mês, mato as saudades do primeiro e único homem que eu já beijei o rosto sem medo na minha vida... meu pai. O cara que, sem quê nem porquê, se apaixonou pela minha mãe e, deu no que deu, me põs no mundo e amou-a por 23 anos. Mesmo assim, mesmo com toda a nostalgia inexplicada, com toda a tristeza que ela confere, com toda a influência da melodia repetida agora em meus ouvidos, ele é meu paizão. Companheiro assim mesmo, a quilômetros - e anos - de distância.

José Augusto Mendes Lobato 12/08/06

domingo, 6 de agosto de 2006

Tarde de Domingo


Aquele casal ficava apenas olhando o mar, em plena “paisagem romântica” de fim de tarde. Quem passava por ali podia até pensar que não passavam de irmãos de idades próximas (até porque eles, ironicamente, são parecidos). Raramente trocavam beijos, nem davam a entender que eram um casal propriamente dito. Pareciam mais amigos de longa data, rindo um das besteiras e idéias insanas do outro e relembrando loucuras afins já feitas. Mesmo assim, pareciam estar mais unidos que qualquer par que, naquela beirinha de Baía em pleno pôr-do-sol, namorava. Sem beijos épicos, sem grandes frescuras. Apenas entrelaçando os lábios nas palavras.

Às vezes, os assuntos eram despojados. Mas geralmente, eles dois compartilhavam devaneios existenciais, idéias profundas, sérias. “Teorias falidas” (que, de falidas, não têm nada), segundo eles, que iam criando e exibindo um ao outro com uma completa liberdade. Não tinham medo de dizê-las, como se soubessem que seriam sempre entendidos, mesmo que envolvessem coisas aparentemente sem sentido, como dinossauros no jardim ou interpretações subliminares para canções infantis, com reflexões acerca da vida. Filosofia para não-filósofos, por assim dizer. Era isso que tanto conversavam, que lhes fazia rir tão animadamente e chamar a atenção dos transeuntes.
Ele pensa em momentos como aquele sendo únicos em sua vida. Com ela, naquele lugar lindo, naquela tarde modorrenta, sentia uma paz imensa como, há tempos, não sentia. Momentos assim, únicos no tempo e no espaço, lhe serviam como consolo para tudo o que já havia passado, todo o sofrimento que o amor já lhe dera estava sendo compensado agora.

- Eu adoro barcos, sabia? Quando pequenininha, queria ser da marinha...

Um barco fazia a curva lá longe, agitando as águas da Baía e fazendo as pedras lá embaixo serem banhadas pela água. Enquanto acariciava os longos cabelos ruivos e lhe beijava a face, criava, em silêncio, mais uma teoria falida, essa cercada de serenidade. O amor de sua vida, a pessoa com quem ele gostaria de dividir momentos de toda sorte, a pessoa que teria que aguentar suas chatices, a pessoa que ele queria aguentar também, aquela que iria lhe conceder sua confiança, aquela que lhe acompanharia na incerta estrada que percorreria na vida, era justamente a menina com quem trocava brincadeiras e palhaçadas, que estava ali, ao seu lado, tranquilamente namorando. Sem muitos beijos, sem grandes frescuras. Entrelaçando-se nas idéias e nas mãos dadas.

Quem passava por ali não entendia aquele casal. Nem precisavam entender. Ele e ela eram donos de uma amizade das mais belas, de gênios opostos e idéias iguais, de formas de expressão diferentes, mas de sentimentos iguais. Almas gêmeas? Não, almas simétricas. Era ela, a menina-mulher que ele estava disposto a amar por toda sua vida. Silenciosamente, mas com toda a força e intensidade que um amor verdadeiro confere. Só se levantaram quando o sol já tinha se posto e uma chuva se insinuava por entre as nuvens no céu, e caminharam de volta ao carro, deixando para trás mais um momento único de suas vidas.

José Augusto Mendes Lobato 06/08/06

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Sobre bandeiras, palavras e símbolos afins

Uma bandeira representa uma nação, que por sua vez é a metáfora viva do que o homem achou conveniente chamar de sociedade. A vida em sociedade, com suas nuances e contrastes, é a nação em questão, cuja bandeira deve representar, por meio de cores, listras e símbolos, a identidade de um país. Mas, na prática, o que seriam as estrelinhas e as faixas multicoloridas que, penduradas diante de um órgão público, estampadas em uma microssaia ou estiradas na varanda de um apartamento, nos lembram que somos apenas pedaço do mundo?
Quando crianças, dimensionamos as coisas ao nosso redor de forma que elas são tudo que temos... o nosso mundo. As imagens de outros países que brilham na tevê nos parecem vindas de outro planeta. Mas as bandeiras... ah, elas não! Os símbolos são incorporados em nossas mentes desde cedo, de forma que sabemos que as estrelas e as listras vermelhas e brancas são os Estados Unidos, e que o verde, azul e amarelo são o Brasil. Tudo são símbolos. Desde a linguagem humana, até os mais primitivos linguajares dos animais e às cores que nossos olhos interpretam. Afinal, quem sabe o daltônico não enxerga as coisas como elas realmente são?
É nessa relatividade que nossos símbolos, nossa bandeira, estão. Que nossa nação e nossa sociedade deveriam estar. As cores nos representam. A água e a natureza virgem, o verde e o azul. O amarelo do calor, do calor humano do povo. Mas lá não está o vermelho da corrupção, nem o preto do mulato que deu cor ao brasileiro. As estrelas? representam estados, supostamente. Mas não exibem brilho diferenciado e escondem a gritante desigualdade das regiões e seu crescente desnível. Assim como em nossas mentes podem não estar sendo lidos os exatos significados das confusas linhas que aqui estão transcritas, o homem que deu a luz ao desenho da atual bandeira do país não soube ler nas entrelinhas de sua terra natal. O resultado? Essa coisinha colorida e feliz cobrindo o caixão de mais um policial morto por traficantes em plena metrópole. Em pleno Brasil.
Uma palavra representa uma reflexão táctil. Um símbolo, tal qual a bandeira e sua profusão de cores, a representar o Brasil. A bandeira que vês é linguagem dura e superficial do país que deverias amar. Se não o ama, pelo menos está aprendendo a ler melhor as únicas coisas que não simbolizam nada: as pessoas. Mais especificamente, os brasileiros medíocres, ironicamente responsáveis pela condução de seu país.

José Augusto Mendes Lobato 01/08/06

domingo, 30 de julho de 2006

Pulso.


Como eu queria poder viajar. Dizem que para se ter experiência na vida que se leva, é preciso desatrelar-se das coisas comuns e cotidianas e, vez ou outra, se entregar ao acaso. Ousar, tentar coisas novas, andar pelos cantos sem um tostão furado, com um mochilão e um pingo de saudade nas costas. E com um grande amor. Mas isso não condiz comigo. Não condiz com a minha incapacidade de mudar as coisas. As coisas são muito metódicas, e quando têm seu ciclo quebrado, tudo o que me resta é uma total sensação de insegurança e frustração, por nunca ser um cara certo para as pessoas que tento conquistar a cada dia.
Seria muito bacana, poder sorrir da desgraça alheia, beber até cair no meio da rua, encher meus poros de fumaça e suor barato, confiar plenamente em tudo e em todos, ser o "par perfeito" - não o "cara legal". Eu gostaria de saber falar as besteiras certas nas horas certas, ter os assuntos certos nas horas certas, transmitir segurança nas horas certas (e erradas), ser um cara daqueles que atrai sorrisos à sua volta, até mesmo para evitar que, sem culpa, faças comparações com o passado. Mas o total sem-gracismo, quando andando de mãos dadas com uma pessoa totalmente oposta, extrovertida, se sente rasteiro diante da vida. E com razão para tal, acaba se martirizando por não ser nada do que esperam dele.
Confesso que te amo tanto, mas tanto, que conseguiria lutar até minhas últimas forças para tentar te agradar e ser a pessoa com quem gostarias de passar o resto de teus dias.
Confesso também, porém, que me sinto inseguro e que sofro às vezes por amar tanto alguém que é tão diferente de mim, e que talvez não compreenda o tamanho do sentimento que, em mim, habita.
Existem momentos contados com meros olhares... espero que hoje, quando te olhar nos olhos, tenha uma perfeita sensação de paz sem mover os lábios, e possa dormir tranquilo de novo.

José Augusto Mendes Lobato 30/07/06

sexta-feira, 28 de julho de 2006

O Livro dos Dias

Primeira linha, primeira página.
Você pensa em tudo que fez ultimamente. Não é exatamente um diário que quer fazer, mas uma espécie de confessionário descartável individual. Aquelas folhas vão voa da sua janela mais tarde, você sabe disso.
Como tudo o que tem em mãos.
Pela primeira vez em meses, você sentiu aquele medo. Aquela insegurança que - espera - não tenham percebido. Que sensação de vazio! Você não completa a vida de ninguém. Quando um garoto, costumava dizer que o livro de seus dias era escrito em linhas que nunca se cruzavam com as de ninguém.
Agora tem a prova viva de que elas se cruzam,
mesmo que para se separar.
(Desista dessa primeira página.)
*
Primeira linha, segunda página,
Você tenta dar palavras a um silêncio que teima em persegui-lo. Não é mais uma criança, e deve aprender a conviver com diferenças, mesmo que elas sejam cortantes. Existem coisas que devem se manter em silêncio! É cíclico. Quanto mais tenta quebrar o vácuo, mais aprende a conviver com ele.
E o que tens em mãos, afinal?
Uma folha, que vai voar pela janela, virar uma bolinha, algo assim...
Cheia de coisas que gostaria que soubessem.
Cheia de coisas que só você parece sentir.
*
Passa horas escrevendo, como que tentando se aprisionar ali, se sentindo especial e único no tempo e no espaço, mesmo que por um simples minuto. Tentando acreditar no que lhe dizem, nas palavras que nunca, nunca deixaram de ser apenas palavras. Cheias de pomposidade, mas sempre palavras...
Não consegue ver, rapaz? Hoje é seu dia de mudar esse livro, trocar sua letra, a tinta com que escreve, e tentar dar um pouco de cor aos segundos que, mais tarde, voltam à primeira página e finalmente deixam de ser segundos.
Tornam-se momentos. Coisas só suas, que serão memória mais tarde, e lhe darão o conforto de quem lutou até o último segundo.
*
Última linha, última página,
Eu não consigo mais me sentir feliz comigo mesmo.
*
José Augusto Mendes Lobato
28/07/06

sábado, 22 de julho de 2006

O Aspirante

"It hurts sometimes, you know? To see all you feel inside´s something people don´t seem to notice. Or they prefer not to see, whatever... what matters is that i´m cracking inside right here, and no one, no one´s to know it all!"

Existem desabafos que devem se manter guardados. Afinal, quem gostaria de saber do sofrimento de um homem como tantos outros? Para que superdimensionar as coisas, martirizar-se? As pessoas não têm paciência para ouvir seus resmungos, meu caro. Muito menos têm elas consciência de que não aguentam ouvir-te.

Como você queria ser mais decidido... saber organizar seu tempo, não ficar pensando no que pode estar perdendo! Mas não, você insiste, insiste em pensar em como segundos poderiam ter mudado tudo, em como cada instante é construído por através de longas especulações, sob o trabalho meticuloso das mãos do acaso! Para que, garoto, para que? Pára de reclamar da vida!

"Você é tão jovem!"

E não, não adianta dizer isso. Porra, e isso lá me consola? Justamente por eu o ser, tenho milhões de sonhos e idéias que, pouco a pouco, vão se destroçando no meio do caminho, pisoteados por escolhas que tenho que fazer. Jogados ao vento, vão pedaços de mim. Diversos futuros, escolhas profissionais que não terei o (des?)prazer de fazer de novo, indo embora conforme aqui escrevo, conforme os anos se passam e o conformismo me domina.

Você sabe, né? Vou reclamar, reclamar e reclamar, e nunca sair do lugar... vou ser um eterno aspírante, não é? Não é? NÃO É?!?

Mas existem desabafos que devem se manter guardados, e este vou encerrar aqui, antes que vocês se enjoem de me ouvir reclamando de uma vida aparentemente maravilhosa e próspera como a minha. Ninguém, ninguém tem paciência para ouvir tudo.
Nem mesmo eu.

José Augusto Mendes Lobato 22/07/06

segunda-feira, 10 de julho de 2006

Carta De Amor

Sinto saudades. E é como se não o sentisse. Tua presença nas pequenas coisas, tua materialização em cada canto de casa, em cada música que ouço, teu reflexo na água do mar. É como se não estivéssemos assim, distantes, é como se não estivesse aqui, sozinho, esperando ansioso por ti. Pareces estar sempre presente, em pequenos pedaços de memória que, no fim do dia, materializam-se em uma única lágrima, tímida a escorrer do olho esquerdo.
Sinto saudades. Espero, atento, para que o telefone toque. E sejamos um só novamente, nas conversas que preenchem o vazio de noites tão modorrentas. A saudade aperta, como que provando para mim mesmo o amor que sinto por ti. Ouço tuas palavras de carinho, risadas gostosas, piadas, e, finalmente, a confirmação de que deste mal chamado saudade, não sofro só. E isso me conforta.
Os dias caminham a passos largos, tão largos. Leio, mas não consigo me prender às palavras na minha frente enquanto não me der um minuto para pensar em ti. Mergulho no mar que espero um ano inteiro para ver, mas sinto que algo ainda está faltando. Nem que fosse aquele abracinho tímido, de quem (ainda) não se acostumou a me abraçar, queria que estivesses ali, para eu jogar água na tua cara e te carregar nas costas no meio da praia do Farol Velho. Me contento em cantar “She´s Leaving Home” enquanto nado, em voz alta, pouco me importando com as pessoas ao meu redor.
É tão comum e exato, o tempo passando vago, quando não estás aqui.
Sinto saudades. E é como se ela sempre existisse. Dois dias parecem um ano. Escrevia versos no guardanapo até achar um caderno e, àqui, os confidenciar. São versos bobos, palavras de amor engolidas em um gole de água (aquela que você não divide nem comigo!). A memória insiste em me lembrar que ando aos tropeços sem tua companhia, essa a que estou tão acostumado. Versos infantis estes, confesso. Mas a saudade é um sentimento normal, e naturalmente bobo.
E todo dia vou pensando que, quando voltares, te farei lembrar de todo o carinho que sinto por ti, meu amor. Mesmo à distância prometo manter em meus lábios um “eu te amo” encarcerado, para te dizer assim que puder, assim que cruzares a alfândega com mil sacolas de compras e uma maletinha cheia de roupas de frio nos braços.
Só para te lembrar que és o meu grande amor.

José Augusto Mendes Lobato 10/07/06

quinta-feira, 6 de julho de 2006

Wave

Já pensei várias vezes em como a vida pode não ser a sucessão de dias em que "deixamos estar". Com os pensamentos aéreos assim, achei lembranças empoeiradas em uma estante qualquer e comecei a caminhar, sonâmbulo, pelo quarto, lendo as entrelinhas da minha pessoa. Aquelas que estavam suspensas no ar, se desprendendo do papel como partículas de mofo que esperavam ser libertadas.
Meu Deus, como eu cresci! Nem acredito que eu era aquele que temia o ano que estava por vir, o dia em que colocaria meus pés no asfalto. É engraçado lembrar de como já temi as coisas mais exdrúxulas. Recordo-me de dias lisérgicos, regados a cerveja e vinho, onde pensava comigo mesmo:"E se hoje for meu último dia? Será que estou aproveitando ele?", e dava risada da minha própria insegurança. Depois que me acordava sentia, então, a sensação de quem jamais tinha aproveitado o último dia sob os covardes lençóis do entorpecimento. Mas o mundo e sua selvageria esperariam o outro dia? Não! Bastava estar no lugar errado, na hora errada, e adeus, garoto. Viraria alimento para a terra, ninguém saberia de suas desventuras e de suas possíveis premonições da morte iminente. Que triste.
Não adianta ter medo das coisas. Evitar a sucessão de momentos de prazer - consequentemente, e não, causalmente, de risco - em nome de uma tal segurança não impede o individio de se ferrar, se for este o parecer final do acaso. Cada batida de seu coração deveria ser um passo adiante; cada carpe diem cuspido de uma boca por impulso deveria ser uma atitude de paz interior; cada grito contido em um sorriso deveria ser o pulsar de veias histéricas a bombear sangue na face franzida. Enfim, cada segundo de uma vida com letras maiúsculas deve se tornar algo intenso e acíclico, livre de sucessões monótonas, de ponteiros métricos caminhando num círculo numerado.
Conhece o ditado de viver cada dia como se fosse o último? E o de contar a vida em momentos, não em segundos? Pois é. Esses clichês da vida cotidiana que ninguém ouve, foram justamente as partículas de poeira literária que saíram dos meus cadernos empoirados, como mensagens póstumas de um garoto frustrado, que agora chegam às mãos de um quase-adulto, dono, por sua vez, de um sorriso no rosto que não mais é fachada de nada, e sim reflexo. Caminhando por entre estantes fictícias no meu quarto, em uma noite comum e desprovida de luar, descobri que não paro de mudar. Nunca fui o mesmo por mais do que três dias, nem nunca o serei. Se agora não temo as ruas e o asfalto, temo os edifícios e os ternos engomados de daqui a quatro anos. Leia-se: continuo temendo o mundo selvagem de outrora, só que agora ele é caoticamente frio. Ah, pedacinhos de lembranças, espero que o vento não lhes leve embora... gostei de me lembrar do quanto as coisas podem ser difíceis para um garoto, e do quão pouco elas podem significar no futuro. E do quanto sou idioticamente reflexivo.
"Se pegar as mãos e fechá-las dando uma volta em torno de si, você vai pegar pedacinhos de você que se desprendem no ar", um professor de histologia arrisca dizer.
Quem há de arriscar dizer que a minha alma também libera fragmentos com o eterno tic-tac dos momentos que se sucedem?

José Augusto Mendes Lobato 06/07/06

domingo, 2 de julho de 2006

Porque as pessoas são tão diferentes?

- Ahhh, amor, deixa eu fazer isso...

- Não, você sabe que eu não gosto!!!

- Tá, não tem problema... (segue um silêncio engraçado e uma mudança de assunto)

Essa situação acontece com todo mundo, né? É a hora em que um dos dois tem que ceder em nome da convivência, como um fumante que pára de fumar porque ela não gosta, ou um namorado que evita apertar a barriguinha da namorada porque ela odeia. É crucial, essencial. O final da cena - que pode culminar em um bom diálogo ou em uma briga boba - depende do nível de maturidade das pessoas em conviver com as diferenças das outras, mas em geral todo mundo já se viu enrolado no famoso impasse de opiniões e gostos. Afinal, porque as pessoas têm que desenvolver gostos tão variados, e, consequentemente, encontrá-los tanto? Às vezes acho que tenho uma boa explicação.

Imagine o que seria acordar com você mesmo deitado ao seu lado. Todo dia. Toda manhã. Ouvir no seu ouvido todas as deslumbrações e asneiras que você pensa consigo mesmo (e conclui, no fim, que é um punhado de merda), viver seus dias tragado na sua realidade, como que andando de mãos dadas com o que idealiza, sabendo tudo sobre aquelas pessoas com quem convive, não existindo sequer um pingo de mistério por trás dos olhos que encara por anos a fio. Seria algo realmente perturbador, sem dúvida.

A uniformidade é antievolutiva, por assim dizer: vai contra a mutabilidade do homem e contra a compatibilidade dos extremos, coisa muito necessária para nós. Talvez seja por isso que busquemos inconscientemente calor humano, e esse bem diferente do que temos dentro de nós, em nome da "diversidade". Aprendemos muito com pessoas diferentes, descobrimos defeitos que nem sempre estamos dispostos a descobrir a sós, ensinamos a viver enquanto aprendemos o mesmo. É uma troca de energia e informação. Por isso que é muito bom namorar, criar laços afetivos, até mesmo implicar com pessoas diferentes de nós. Extraímos delas sempre boas informações que, cedo ou tarde, vão servir para a gente.

Quanto a quem deve ceder... isso depende dos gênios. Gênios fortes geralmente são mestres da situação e sabem impor sua vontade tranquilamente, e os de gênio suave tendem a aceitar isso, sem no entanto se entregar sem estribeiras à vontade alheia. Nas entrelinhas, porém, todos têm sua vontade feita: aos "dominadores", a vontade feita; aos "dominados", o prazer de satisfazer seus pares e, vez ou outra, dominar secretamente. Quanto à essa mistura, essa verdadeira cagada de mentalidades, é ela que faz da vida afetiva algo tão caloroso, cheio de diversidades e divertido de se viver. Filtro solar à parte, a boa dica para se viver intensamente é ter ao lado alguém diferente de você, que respeite sua opinião e saiba, com você, olhar sempre os dois lados da moeda antes de jogá-la no bolso.

Agora, se alguém vier lhe perguntar porque as pessoas são tão diferentes e podem dar certo, lembre-se do que o ser humano nu em pêlo aqui vos fala:
Elas são assim para que possam, cedo ou tarde, amar.

José Augusto Mendes Lobato 02-03/07/06

quarta-feira, 21 de junho de 2006

O Aspirante e o Profissional

Momentos de indecisão profissional frequentemente me vêm à tona. Não que não saiba o que quero da vida - muito pelo contrário -, o problema é que eu ando querendo coisas demais. E acredite, não é fácil querer fazer 48 horas brotarem das habituais 24 para tentar materializar todos os seus planos.
Ah! Nem preciso me lembrar do quanto isso é culpa do sistema aplicado aos estudantes. Nem preciso citar o funcionalismo quase chapliano que se aplica ao ensino superior, e à impossibilidade de nós, pessoas normais que querem uma vida social decente, nos especializarmos em diversas coisas sem ter que abdicar das noites com a namorada e os amigos. É, é culpa do capitalismo, sim, não importando o quão clichê isso soe. Tamanha é a forçação de barra, tamanha é a imposição sobre os futuros profissionais, que aí estão os advogados que sonham em ser jornalistas, os engenheiros que sonham em ser arquitetos, os biólogos que sonham em ser filósofos, os filósofos que sonham em ser jornalistas, os jornalistas que sonham em ser... médicos?!?!? Jornalistas querendo ser médicos?!?!?!?!?
Sim, isso mesmo, meu amigo. Esse era meu sonho. Era.
Enfim. Embora não dê o braço a torcer, sinto que essa possibilidade já se distancia do futuro jornalista que aqui vos escreve. Seis meses em um cursinho, aliado à faculdade e ao trabalho, andaram deixando esta cabeça pensante aqui um pouco entupida de informação. E mais: a psicologia surgiu, como alternativa B para medicina, perfeitamente cursável com jornalismo e, até certo ponto, aproveitável para tal profissão! Parece tudo maravilhosamente bem, não é? Aí é que você se engana.
Será que duas faculdades seriam conciliáveis, mesmo sendo suaves quando isoladas? Será que vale a pena desafiar a lógica atual e se espelhar nos antigos pensadores, como Newton, Descartes e Platão, e tentar conhecer o terceiro lado da moeda, a ciências complementares? A matemática das palavras, a biologia da filosofia, a física do jornalismo?
Mas isso aí é papo longo demais, coisa para o futuro. Por enquanto me preocupo em "estudar" para tentar ingressar em uma faculdade, enquanto desfruto das maravilhas que a outra me dá. São duas vidas diferentes em conflito, agora. E haja 48 horas para aproveitar cada segundo desta pequena jornada rumo a mais um sonho reconstruído sob uma visão realista - consequentemente, capitalista - do que podemos representar no mundo profissionalmente.
(...)
O aspirante vai dormir agora, com licença.
(...)
O Jornalista? Sò dorme quando parar de trabalhar.

José Augusto Mendes Lobato 21/06/06

sábado, 10 de junho de 2006

Descoberta

"Time had gattered in the sunshine
Staying home to watch the rain
You are young and life is long,
And there is time to kill today
And then onde day you find:
Ten years have gone behind you..."


A falta do que fazer, sem dúvidas, é minha musa inspiradora. Pensamentos raramente vêm à tona em dias tão corridos como os últimos têm sido... mas e quando eles vêm, o que me resta fazer, senão abandonar a inércia mental e o descanso e tentar tirar conclusões bobas sobre o que martela minha consciência? Pois é.
Vou pensar.
"Pensamentos avulsos", diria um grande amigo meu; eu prefiro chamá-los lapsos de inconsciência. Pequenos segundos, acordes e ruídos efêmeros que soam em meus ouvidos e ecoam por horas, dias, meses, presos na minha garganta para serem cuspidos de volta e acharem novo eco. Esses devaneios acabaram de escapar de dentro de mim.
Estava deitado, ouvindo Pink Floyd e observando aquela foto que, há dois meses e alguns dias, habita minha estante. Confesso que passei algum tempo sem parar para pensar nos rumos que minha vida toma, e naquele pequeno lapso, resolvi o fazer. É interessante observar o tempo passar fixando seus olhos em um único objeto, já tentaram? Passar o dia inteiro olhando um relógio pequeno emitir seu discreto tic-tac, ver o sol brilhar em cima dos ponteiros, até o momento em que o breu cobre a sala, deixando apenas o ruído quebrar o silêncio ao passar de cada segundo. Observei, entre o fim da tarde e o início de noite, aquela fotografia completar mais um dia de idade. E qual foi minha surpresa ao encontar-me tão feliz, mas tão feliz com isso, a ponto de sorrir para o retrato? A ponto de lembrar cada besteira que falei para você durante esses setenta dias, cada risada que demos juntos, cada debate filosófico no telefone às quatro da manhã? Fiquei, por alguns minutos, pensando no que seria aquilo. Se realmente estava pronto para te dizer aquela frase que, há tempos, guardava no meu íntimo, por medo de não ouvir o mesmo de ti.
De tanto dar risada, então, comecei a imaginar as coisas mais "absurdas" (em uma visão racional) possíveis. Imaginei você do meu lado o resto da minha vida; imaginei filhos com seu rosto e meu jeito, com a minha teimosia e sua perseverança. Imaginei pequenas brigas que, provavelmente, um dia devem acontecer entre nós, sendo resolvidas com um tímido, mas doce abraço; imaginei um beijo imenso, daqueles que você se agonia, sendo dado num altar improvisado na beira do mar. Você, mulher da minha vida. Mas que loucura! Deveria eu já estar pensando nessas coisas?!?
Eu sei, queridos "amigos" racionais, parece loucura/irracionalidade/precipitação/chatice o que acabei de dizer. Mas digo, por própria experiência, que não há nada melhor do que sonhar, desde que seja com a pessoa certa. Pela primeira vez, creio eu, a pessoa certa é essa que habita meus sonhos e acompanha meus passos, que está sorrindo para uma rosa vermelha no retrato em cima da minha estante. A que, a esta hora, está trabalhando enquanto seu namorado babão se deleita escrevendo textos numa sexta-feira modorrenta.
É por essas e outras que agora eu posso te dizer que meus pensamentos convergem em você, e que te coloco na minha vida pelo simples fato de você ter me colocado na sua.
Eu posso, sem medo, te dizer algo que, há exatos dois meses e cinco dias, foi se construindo dentro de mim. Sem medo de sua resposta, acima de tudo, afinal cada um tem sua hora para descobrir o amor dentro de si. Não tenha medo ou se sinta cobrada.
Agora eu posso dizer tranquilamente, e com todas as letras,
Eu te amo.

José Augusto Mendes Lobato 10/06/06

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Presente e Futuro


Não sei por onde começar. Pelo Presente ou pelo Futuro. Talvez deva, antes, conversar uma última vez com o Passado.

(...)

Sei que é, talvez, o que se pensa, o que parece o ser, quando me expresso em palavras. Mas eu peço para não darem entrelinhas afins à minha vida, ou à esta redoma em que escrevo. Não dou mais espaço para o Passado, ou para algo que não mais habita meu coração. Dou o papel e a caneta - o papiro e o pergaminho - ao que tenho em mãos, ao agora que me pertence, ao novo que vivo a cada dia. Ao Presente.
Não confio em ciclos, como bem se sabe; cada segundo é Passado, e o Passado é apenas o lugar-comum da melancolia. Não dou mais espaço à melancolia. O ciclo se fechou em uma simples despedida formal à porta, sem qualquer sinal de ressentimento. Continua assim, ao menos para mim. Se algo deve reviver, é o sentimento que deve se reciclar sob outro véu. Mais precisamente, os corações que se separaram devem achar outro par. Estou à busca, sem códigos quaisquer em mãos, e, ao que me parece, estou feliz do jeito que estou, com um novo par. Na minha rotina, na minha vida, livre para ser o que sempre fui.
Desejo toda a felicidade do mundo à quem ainda não chegou neste momento, o de redescobrir o amor em outro par de olhos... em outro espelho.
Peço, porém, o silêncio conveniente e definitivo de quem encerra uma conversa, já rota, com um doce abraço de despedida.

José Augusto Mendes Lobato 01/06/06

* Talvez palavras e termos se repitam (espelhem), mas como disse Renato Russo,
"Quais são as palavras que nunca são ditas?". Aqui, na redoma, falo de algo que vivo intensamente, e agora.
** As maiúsculas representam a força dos três tempos, presente, passado e futuro. Os três dependem um do outro para coexistir no tempo e no espaço, na razão e na emoção.
*** A felicidade sempre está escondida nas entrelinhas do Presente.

domingo, 21 de maio de 2006

Rising In Spirals


Eu sei, são anseios infundados. Debaixo d´água, o corpo pede ar. De mãos atadas, o corpo pede gritos. O rosto reflete-se na superfície. Puxado para cima, e - Deus me perdoe - mas só me resta perder a alma. Vagar assim, como tantos milhões, de olhos vendados, sem ao menos saber o que se passa ao meu redor. Agindo pelo instinto ridículo e primário de trazer à tona anseios infundados.
Esse que vês sou eu, sabia? Não há mais máscaras, tentativas vãs de agradar a alguém escondidas em um dito "amadurecimento". Muito pelo contrário. Nunca me senti tão apto a errar e cair nos erros infantis de quem peca por sentir. Gostaria que não fosse tão fácil e prazeroso entregar-me; mas, se não o fizer, me sinto sufocado!
Me levanto. Vou até o porta retratos, aquele que tenho perto da cama. Sim, você existe! E isso ultrapassa qualquer linha ceticista de raciocínio que me impõem. Você existe, e está do meu lado. O corpo não pede mais ar, nem grita por socorro. Meu peito leva uma lufada de ar morno. Suspiros preenchem o silêncio de outrora. Teus lábios encostam nos meus, e, mais uma vez, os dois corpos estão entregues um ao outro e se fundem diante do espelho.

"Wake,
Wake and let them see
Your smile cover the deep
And light the candles under my skin
Wake,
Wake up from your dream
This time it´s real, and yours
This world is ours
And there´s no time to follow fear
Or to think it clear
It´s easier when you have no time for tears
And no water inside for the drops
Wake, and remember i´m here."


José Augusto mendes Lobato 18/05/06

segunda-feira, 15 de maio de 2006

Sinking In Spirals


Às vezes você se sente sozinho, quando sentado no sofá de sua casa a contemplar as espirais de fumaça se desprenderem do cigarro. Às vezes, porém, está cercado de pessoas - amigos - rindo e conversando, e mesmo assim sente-se só. Inclusive alia isto à paradoxal vontade de estar na sua casa naquele momento, deitado na sua cama, se confessando para uma folha de papel enquanto vê o sol nascer.
Não, ninguém entende. Nem há por que (ou como). Você mesmo não compreende! Agora está em casa, escrevendo deitado na sua cama. Pelo visto, sua situação não melhorou. Continua sentindo-se mal. Continua oco, de peito apertado. Sentimentos afloram; mas será que já é a hora para tal? Um cansaço indescritível faz o corpo doer, e a mente se focaliza nas imagens de um dia que eternizou-se.
Às vezes pensa que vive a pior fase de sua vida. Os dias ocupados pelo estudo. O terrorismo mental, a auto-cobrança, a culpa. Logo lembra que ela existe. Sente-se bem melhor, sim... mas novos anseios vêm à tona. É sensato entregar o coração assim, tão indefeso, nas mãos de um amor tão jovem?
Às vezes você, de tanto enterrar um medo seu com punhados de outro, acaba perdendo a linha de raciocínio. Acaba sozinho, em amplos sentidos, se martirizando por querer ser diferente e nunca o conseguir. Por sentir um pouco demais, por si e pelos outros. Por si e pelo amor que cultiva dentro de si.
Não, ninguém entende. Nem há como ou por que.

"Sleep,
Sleep tonight.
Taste the memories
Melting the now you´ve got inside.
Weep,
Weep in peace, but don´t cry!
They just don´t understand
You were the first to really hold my hand
Without leaving them tied.
So keep,
Keep this secret between us,
One month may be one second
But now i have one century with you, with me
And one eternity to defy."



José Augusto Mendes Lobato 14/05/06

sábado, 6 de maio de 2006

Meninos e Meninas?

Andava de carro distraído, falando bobagens com uns amigos meus enquanto decidíamos para onde ir. Eram cerca de quatro horas da manhã, as ruas já estavam um pouco vazias, com poucos carros e pessoas passeando. E eis que pára um carro do nosso lado, cheio de adolescentes mais novos que nós. E qual não foi nossa surpresa ao ver, no banco de trás, um casal... de meninos?!?

Sim, dois meninos. Um do lado do outro. Se olhavam rapidamente e espiavam à sua volta, como que calculando a probabilidade de alguém comprometedor os ver, e de forma espontânea, com os demais amigos dentro do carro mesmo, se beijaram. Não, não de forma tórrida ou seja lá o que for. Apenas se beijaram.

Maior que meu choque em vê-los foi meu choque ao perceber que me chocava com isso. Vive-se um mundo de possibilidades e liberdades ditas quase infinitas, e, teoricamente, um casal de meninos de 14 anos deveria ser normal, assim como um de meninas. Mas, na prática, ainda há uma certa intolerância de nós, heterossexuais, com o bissexualismo. E, afinal, porque isso?

Deixando de lado a visão biológica-evolucionista, restam apenas os dogmas da Igreja. Mas, peraí. A Igreja repreende quem sente atração por pessoas do mesmo sexo, mesmo sem elas terem tido culpa de tal? A Igreja é, acima de tudo, a base de toda a sociedade atual, temos uma dívida cultural bastante polpuda com ela e tudo o que somos, temos e cultivamos nasceu da religião, de uma forma ou de outra. A negação da própria sexualidade em nome de Deus seria realmente algo saudável? Não sei. Só sei que aquele beijo não me pareceu nada indecente ou profano. Foi apenas algo incomum, uma espécie de contracultura manifesta da homogenia sexual. Pode parecer estranho, mas, ao pensar direito no que vi, me pareceu até uma atitude admirável assumir diante do resto do trânsito e do mundo um desejo que se faz presente em tantos.

Antes que joguem pedras: não, não me sinto atraído por pessoas do mesmo sexo. Apenas senti pena, pena porque sou incompreensivo mesmo lutando para não o ser (e todos são como eu). Pena porque aqueles meninos ainda irão sofrer muito. Pena pelas vidas que precisam estar ali, encarceradas dentro de suas mentes e de seua carros às quatro da manhã, pelo medo de sofrer julgamentos vagos. Acima de tudo, senti pena de mim mesmo por ter pena deles. Era a vida deles, afinal, e minha voz de nada servia, ou as pedras viriam para cima de mim e me tornaria um suposto "defensor doa gays".

E, chocado assim, mas tranquilo assim, voltei a olhar para a frente, para a cidade, enquanto o carro com o casal se distanciou na rua ao lado. Os vi se largarem um pouco, e o braço de um deles estava por trás do ombro do outro.

Nojento? Aceitável? Demoníaco? Absurdo? Natural?

Isso aí vai depender de você. Ao meu ver, não passa de um preconceito embutido em nossas cabeças de julgarmos subjetivamente quem difere objetivamente de nós.

terça-feira, 2 de maio de 2006

Mais um resmungo

Qual será o tamanho da aura de intelectualidade que cerca os que escrevem?
(...)
Não, perdoem-me a expressão, escrever é uma coisa. ESCREVER é outra.
Pegar num papel e rabiscar o nome é bem diferente de deixar descer para a ponta da caneta a fluidez de pensamentos avulsos, parágrafos transcritos da alma do escritor. Não é?
(...)
Pois bem, voltando à questão: qual a mistificação que se faz sobre os que ESCREVEM?
Será que é ser "culto"? Diferente das massas de gente alienada? Gostaria de saber, afinal não passo de mais um garoto pimbudo que nem responde pelos seus atos. Se ESCREVER significar algo, me coroem, porque não passo dez dias sem escrever. Poesia, prosa... o que for. É um vício. Porém, uma coisa é ser um poeta urbano, um revolucionário de tempos modernos. Outra coisa é escrever e não ver nossas idéias se repetirem em versos, não sermos clichês, egoístas, pessoalistas, infantis! Não passam de resmungos, salvo pouquíssimas exceções. Agora me diz: o que isso tem de bom? "Perco" horas na frente de um computador escrevendo não sei para quem, nem com que objetivo, não sei por quantas vezes! Por que não sair de casa, deixar o vento e a chuva me machucar e banhar? Posso lhes garantir que não fico esperando alguém ler e falar que está lindo, maravilhoso, até por que isso é mentira e eu sei. Apenas falo com as paredes, com as redes virtuais... com o blogger, até, se querem saber! Resmungo, simplesmente. E qual o papel de um cara desses no mundo? Ser chamado de culto?!? Se encarcerar nos seus pensamentos, e, como diria uma grande amiga minha, nas suas "teorias falidas sobre a vida"?
Que honra mais pútrida!!!
(...)
Cultos são os que pensam e pouco falam, cultos são os pensamentos suspensos numa névoa de entrelinhas; cultas são as vozes que nos falam diretamente o que sentem, cultas são as vozes que não estão aprisionadas nas palavras! Cultos são os de "coragem", os que sentem e não precisam escrever! Pelo menos é o que pensam. Que cultos são os alienados, vazios, ditos fortes diante do turbilhão de sensações que lhes rege os dias e noites...
"Cultos são os insensíveis!!!"
(...)
Eu? Ainda ESCREVO por aqui o que penso, e nem sempre o falo. É a sina do covarde e jovem pseudopoeta que vos escreve toda semana...

José Augusto Mendes Lobato 02/05/05

sexta-feira, 21 de abril de 2006

Racional?!?

Dia desses, estava a discutir com minha irmã. Aquelas discussões bobas, coisa de família - devo ter esquecido de não encostar naquela latinha de refrigerante que era só dela. No meio da gritaria, minha mãe se meteu no meio e disse:
- Parem com isso, os dois! Discutam como seres racionais.
Devido à moral que uma mãe tem - e apenas devido a isso - me calei na hora. Mas algum tempo depois, me encontrei sentado na sala, resmungando comigo mesmo. Que diabos de argumento fora aquele? Racional?!?
Pensei em cachorros, ovelhas, vacas. No quanto somos mais inteligentes que eles, no quanto nossa racionalidade nos tornou tiranos da cadeia alimentar, no quanto somos "abençoados" por Deus e o Diabo. Depois parei para pensar no que seria a racionalidade propriamente dita. Uma convenção, talvez? Uma forma de autocontrole que se tornava uma prisão emocional quando aplicada em larga escala?
...Uma caverna?!?
Ora, e não é que as coisas faziam sentido? Não podemos gritar, mesmo quando é a única forma de ser ouvido; não podemos expressar o nosso amor, mesmo quando ele é a coisa mais linda que o coração já abrigou; não podemos questionar, mesmo que o mundo que esteja diante de nossos olhos seja apenas um par de lentes cheias de poeira; não podemos sentir ciúmes, mesmo quando ele é provocado; não podemos lutar pelos nossos ideais, mesmo quando estamos sendo bombardeados pela hipocrisia. Ou seja, não podemos ser espontâneos. Senão seremos grossos, sentimentais em excesso, rebeldes sem causa, ciumentos, egoístas, egocêntricos, forçados. Não podemos nem mesmo exaltar o que temos de melhor dentro de nós mesmos, ou seremos "esnobes"! Enfim, o que é a racionalidade diante de tantas presilhas?
...Uma caverna.
E não é mito, meus caros. Naquela tarde, poderia ter feito minha irmã perceber que éramos uma família, e que aquela lata era apenas um objeto de consumo barato, que não deveríamos afetar nossa relação familiar devido a um simples ato impensado de um dos lados. Tudo com apenas um pouco mais de discussão, com uma pequena batalha de vozes e argumentos. Mas a racionalidade me impediu, materializada nas palavras bem-intencionadas de uma mãe. E, mais uma vez, tapou-se o sangramento com um cascão frágil, e nós, os bichos que habitamos a caverna, estamos separados por uma parede de quarto, cada qual para o seu canto, com seus argumentos e suas idéias. Segregados e excluídos um do outro, em prol da estabilidade do lar. À beira de mais um ataque de nervos, leia-se uma breve escapada da redoma de humanidade que nos é imposta. E este é o exemplo mais minimalista que já vivenciei. O autocontrole que acaba sendo por si só um descontrole chega a afetar coisas fora do meu plano, como as relações globais entre os países, as regras sociais, a exclusão, a desigualdade... Mas isso era papo para outra hora. Estava cansado e fui me deitar.
Não consegui dormir. Passei a noite em claro, apreciando as sombras vindas da rua que se projetavam nas paredes do quarto.
Quase me senti preso em meu próprio corpo...

José Augusto Mendes Lobato 16/04/06